O Vasco não é Eurico

Antero Greco

15 de abril de 2015 | 14h46

Eurico Miranda ficou furioso porque o “Extra”, editado no Rio, fez reportagem na qual falava em dificuldades financeiras do Vasco. O dirigente contestou a informação, garantiu que não há problema algum de dinheiro e que as contas estão em dia. Até aí, tudo bem, interessante que o cartola tenha vindo a público para dar esclarecimentos. Se forem verdadeiros ou não, o tempo – e eventualmente funcionários – dirá. E vida que segue.

Há um porém, como sempre há em quase tudo na vida. Na ênfase em defender a administração que retomou no final de 2014, cometeu dois deslizes. O primeiro foi falar sempre em primeira pessoa, coisas do gêner, “Eu não tenho problema financeiro”, “Eu não devo nada”, “Eu não preciso falar disso para a imprensa” e assim por diante.

Quer dizer, incorporou o Vasco como coisa dele, ou como se fosse ele a instituição. Não se trata de figura de linguagem, mas uma reação, uma transferência que um psicólogo pode definir com mais propriedade. Enfim, quero dizer o seguinte: o Vasco não é de Eurico. A instituição estará sempre acima de quem ocupar o poder, seja por quanto for. Qualquer cartola passa, o clube fica. E isso não se discute.

Segunda derrapada, e séria. Eurico disse que não se interessa se algum jornal atrasa salários, não questiona os repórteres. Da mesma maneira, não deseja ser interpelado a respeito de assuntos internos do Vasco. Ledo engano.

Problemas de uma empresa jornalística afetam os funcionários e os leitores. E, bem ou mal, o público e o mercado são informados. Mas não se compara o interesse em torno da situação de um jornal com a de um clube, sobretudo se for popular como o Vasco. O que acontece com ele mexe com paixão de milhões de pessoas e, portanto, é notícia. Sempre será.

Problemas com dinheiro num time têm reflexo em campo. O clube pode perder jogadores importantes, pode enfrentar greves, o elenco treina mal e tenso. E isso se reflete nos resultados, como rebaixamento, por exemplo, mal que atingiu o Vasco em duas ocasiões.

É dever do dirigente ser transparente ao lidar com algo que não é dele, é bem comum, é de todos os que compartilham de idêntica paixão. Talvez aí esteja a chave da questão: Eurico mistura Vasco com a pessoa dele. Pode ser que o cidadão Eurico Miranda não tenha aperto nenhum do dinheiro; o que não significa que o mesmo valha para o Vasco.