O vulcão alviverde*

Antero Greco

30 de agosto de 2013 | 12h57

Os sicilianos vivem de olho no Etna, o principal vulcão ativo da Europa. O cuspidor do fogo e da lava que vêm das entranhas da terra de vez em quando parece adormecido, quieto, preguiçoso no meio do verde do parque que o circunda na cidade de Catânia. De repente, o danado se sacode, solta fumaça espessa, derrama a bile fervente e deixa a população local com a pulga atrás da orelha e pronta para dar no pé em caso de emergência.

Pois o Palmeiras se assemelha ao vulcano do país de onde vieram vários dos imigrantes que o fundaram há quase 100 anos. Ou seja: a vida aparenta normalidade nas paragens do Parque Antártica (mudou de nome, mas continuo no tradicional), o time engorda o superávit, o retorno à elite é questão de tempo. A paisagem palestrina segue envolta em brisa suave, clima de primavera… até explodir um fato para soar alerta geral.

Desta vez a ebulição ocorreu logo após os 3 a 0 para o Atlético-PR pelas oitavas de final da Copa do Brasil. E quem cutucou o dragão natural foi Paulo Nobre. O presidente ficou furibundo com o desempenho da equipe em Curitiba. Classificou a atuação de apática, advertiu que haveria cobrança a “quem de direito” (entenda-se Gilson Kleina) e, por tabela, deixou no ar cheiro de fritura do treinador. Um Furacão curitibano atiçou o Vesúvio paulistano.

Concordo em parte com o dirigente. A derrota decepcionou, porém a equipe jogou o que pode e consegue. O duelo com um protagonista da Série A escancarou as limitações de quem disputa a Divisão de Acesso. O Palmeiras nada de braçada no meio de adversários de categoria inferior. E levou choque de realidade em Curitiba, notou que não está pronto para fazer bonito no Brasileiro de 2014, para onde certamente regressará. A liderança não passa de obrigação, compatível com currículo e folha salarial de maior valor. E não se pode considerar em boa fase time grande na Série B. Se caiu, é porque errou pra chuchu e tem muito a corrigir.

Nobre desviou o foco, e suponho não o tenha feito por maldade. Porém centralizou luzes sobre os métodos do treinador e a influência que exerce no elenco. Sugeriu debilidade do chefe, mas se esqueceu da analisar a qualidade do material de que dispõe. Como observaram amigos no Twitter, a questão no Palmeiras é técnica e não “o” técnico, assim como não adianta cobrar vontade em vez de capacidade dos atletas. Talvez por isso tenha jogado água na fervura ontem ao confirmar Kleina.

O elenco não é maravilhoso nem ruim; adequado para a Segundona. E ainda perdeu Vilson por uns trocados alemães. Os bons resultados não podem estimular a empolgação, nem fazer com que torcedores e cartola vislumbrem versão verde e branca do Barcelona ou do Bayern. Lembram da Barcelusa de 2011? Arrasava na B, subiu fácil e por pouco não retrocedeu em 2012.

Da mesma forma, não é um bando de pernas de pau à disposição de Kleina. Há gente com qualidade ou potencial para brilhar no meio de rivais gabaritados. Outros são medianos. Inevitável, portanto, uma varredura tão logo se carimbe o passaporte para a Primeira. Vale também uma reflexão: não falta referência para um time que tem como ídolo jogador (Valdivia) que passa mais tempo na enfermaria do que no campo?

Nem adianta Nobre apelar para o discurso de que não fará loucuras para festejar o centenário. Ele tem o dever de tirar os pés do chão, se quiser brilho em período tão especial. Não deve pensar pequeno, nem rezar pelo catecismo de capos superados que insistem em dar as cartas. O Palmeiras pede e merece ousadia.

Talvez não seja sob o comando de Kleina, profissional correto e que não empolga os fãs e a direção e que, pelo jeito, vai roer o osso e não provará o filé. Mas preocupante se a tarefa for entregue a Luxemburgo, como escreveu ontem o colega Luís Augusto Simon no blog dele. O professor teve passagem brilhante no clube no início dos anos 1990. Ultimamente atravessa turbulência. Seria motivo para acordar o vulcão…

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 30/8/2013.)

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