O zagueiro e a corda bamba*

Antero Greco

10 de março de 2014 | 12h49

O garoto quando começa a dar chutes na bola – a de verdade, não as virtuais de joguinho de computador – foge do gol e da zaga. Duas posições azaradas, em que as falhas sobressaem, nas quais o menor vacilo pode levar o time à derrota e lhes causar desgraça com os amigos. A meninada prefere o ataque, para se consagrar, ou o meio-campo, porque toca daqui e de lá, e fica sempre no lucro: se fizer lance bonito, recebe aplausos. Se errar, a bronca sobra pra turma lá de trás.

Nos dois episódios marcantes do clássico de ontem, no Pacaembu, Antonio Carlos contribuiu para aumentar o mito da maldição do zagueiro. Muito menino que atua na defesa talvez amanhã mesmo peça ao treinador para mudar de função. Vai ser zicado assim lá longe!

Imaginei como deve ter se sentido o Antonio Carlos, e não queria estar no lugar dele. O primeiro vacilo, com menos de dez minutos, acabou com a bola rede, no desvio dele, ao tentar o corte, após o chute de Luciano. O segundo, na etapa final, outra vez lá estava o grandalhão, firme e atento, para cortar o chute cruzado de Guerrero e viu a danada enganar de novo Rogério Ceni.

Não sei se você reparou, mas Antonio Carlos deu uma espiada tímida, no segundo gol que marcou para o Corinthians. Como se, assim, tirasse a falha da cabeça. Algo do gênero: “Ai, Jesus! Não é possível! Desta vez não fui eu….”

Mas foi. E não tem nada de trágico. Coincidência, perversa e constrangedora, e só. Não se trata de grosseria, colocação errada na área ou pé torto. Antonio Carlos tem evitado gols e os tem feito, a favor do São Paulo, evidentemente. Episódios que entrarão para o folclore e serão lembrados pelos fãs ardorosos das estatísticas bizarras.

Os gols contra de Antonio Carlos apimentaram um duelo que foi agradável do início ao fim. Se não houve primor de estratégia e de técnica das duas equipes, prevaleceram vontade, aplicação e gols. O público não se sentiu garfado. O corintiano, claro, saiu preocupado com a classificação, que agora depende também de tropeços do Ituano. O são-paulino curtiu alívio trazido pelos 3 a 2, com o fim de sequência sem vitórias em clássicos com rivais locais.

Mano Menezes apostou em Renato Augusto para o lugar de Jadson, impedido de atuar por acordo entre os cartolas. O meia fez o possível, mas aquém do novo e recente titular. Tanto que saiu para a entrada de Guerrero na segunda parte. O meio-campo alvinegro caiu em criatividade e velocidade.

Compensou com boa marcação, postura estendida para a defesa. O que parecia um mérito se revelou uma arapuca. O Corinthians recuou, depois da vantagem inicial. Parecia uma volta ao auge dos bons tempos de Tite, com a tática de atrair o adversário e liquidar a história em contragolpes com Romarinho e Luciano, isolados na frente. Não criou praticamente mais chances e ainda viu o São Paulo chegar e ameaçar.

A convicção corintiana começou a ruir com o golaço de Ganso, antes do intervalo. Ah, se esse jovem cometesse tais desatinos a todo momento! Hoje, estaria ao lado do compadre Neymar na seleção. Quem curte futebol deseja ver Ganso arrasar, pois talento não lhe falta.

A empolgação – e a postura mais firme – do São Paulo valeu-lhe a virada com Luis Fabiano. E não é que o centroavante, na miúda, voltou a marcar com regularidade? São 9 no Paulistão. E, bem interessante, tem reclamado menos que de costume. Produção aliada a autocontrole desemboca em fase de vento a favor.

Maré mansa para Muricy e turma iniciarem outra aventura na Copa do Brasil, num dos raros títulos que o clube não possui. O São Paulo amadurece, mesmo com limitações, mas encontra caminho para evitar tantas decepções como em 2013.

Resta ainda a expectativa de que se saia bem na troca que fez com o Corinthians (Jadson aprovou no Parque São Jorge). Pato terá a primeira chance no jogo com o CSA, no meio da semana. Hora de ver se a mudança de ares lhe fez bem. Ou se manterá a cantilena anterior.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 10/3/2014.)

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