Olimpíada e destruição de uma comunidade

Antero Greco

07 de fevereiro de 2016 | 13h40

Crônica do jornalista Roberto Salim.

As obras olímpicas estão quase prontas. Segundo os órgãos oficiais e o Comitê Olímpico Brasileiro, 97 por cento. Isso é o que se conta hoje.

Mas, se um dia a história dos bastidores for contada, com detalhes, muita gente morreria de vergonha. Se é que essa palavra existe em seus dicionários.

Um dos casos inacreditáveis é o da destruição da pista do Estádio Célio de Barros. Virou estacionamento durante a Copa do Mundo, com a promessa de que seria reerguida para servir de pista de apoio durante os Jogos de 2016. Mentira deslavada.

O local onde Joaquim Cruz, Adhemar Ferreira, João do Pulo, Nelson Prudêncio, Nelsinho Santos, dona Aída dos Santos e tantos outros competiram virou terra de ninguém. E hoje se presta vez ou outra a “raves”. Esse e o caso do velódromo do Pan, que foi desmontado e enviado em carretas ao Paraná; são situações simbólicas do desmando esportivo e público do Rio.

Mas nada, nada mesmo se compara ao cerco à Vila Autódromo – comunidade de trabalhadores que foi sendo destruída com táticas de terror administrativo. Primeiro com ameaças, depois com atos hostis e agora tentando cortar a luz no local, onde cerca de 50 famílias ainda resistem.

“Isolaram duas casas dentro do Parque Olímpico e tentaram cortar a luz. Daí cortariam de toda a comunidade”, contou neste domingo cedo a jovem Natália, moradora do local. “Resistimos, buscamos nossos direitos junto à Defensoria Pública e conseguimos impedir”.

Lembro como se fosse hoje do dia 9 de junho do ano passado, quando encontrei Natália e sua mãe, dona Maria da Penha, chegando em casa. Dona Penha com o rosto inchado.

A líder dos resistentes pesa 47 quilos, mas tem uma tonelada de determinação. Enfrentou a tropa de choque, que queria desalojar moradores, apanhou e uma semana depois ainda fazia compressa no rosto. Ela, o marido e a filha continuam na luta. Inglória.

Até o início dos Jogos, quando 100 por cento das obras estiverem prontas e políticos e dirigentes estiverem dividindo os louros, Dona Penha estará bem longe de onde morou quase a vida toda. Mas estará como sempre de mãos limpas.

Da minha mente não sai uma das frases pintadas nas casas semidestruídas: “Nem todos têm preço”.

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