Os mestres e o astro

Antero Greco

18 de junho de 2015 | 14h17

Os professores chilenos estão em greve como protesto por mudanças no sistema de avaliação profissional que o governo propôs para a categoria. Desde o início do mês, promovem passeatas frequentes, para atrair a atenção da população. Aproveitam também a exposição do país com a Copa América para dar mais visibilidade ao movimento e suas reivindicações. Têm tido repercussão menor do que a desejada; lidam com a indiferença geral.

Arturo Vidal é hoje o principal nome do futebol chileno. Titular da Juventus de Turim e nome incontestado no time nacional. No começo da semana, aproveitou folga, encheu a cara e destruiu a Ferrari dele a 160km/h. Por sorte, sofreu alguns arranhões, assim como a mulher, e o acidente não provocou consequências graves para outras pessoas.

Vidal foi arrogante. Ao ser detido em flagrante, afirmou para os policiais que, se fosse preso, a seleção do Chile iria se f… na competição. Foi levado para um tribunal, prestou depoimento, pagou fiança, foi liberado, reintegrou-se ao elenco, chorou, pediu desculpas e disse que vai se redimir com o título. Em frente ao tribunal, houve manifestação em favor de “rei” Arturo.

Não só isso. Houve comoção pelo país. Torcedores ficaram apreensivos diante da ameaça de o astro ir para o xadrez, mesmo que por alguns dias. A ausência dele poderia influir de forma desastrosa nas pretensões da equipe dirigida por Jorge Sampaoli. Era imprescindível, portanto, essa corrente positiva em torno do moço.

Não faltou quem se comovesse com “o drama de Vidal”, por extensão um drama chileno. Ora, ele só prejudicou a si mesmo ao escangalhar com o carro caríssimo; não machucou ninguém; quem não comete exageros na vida alguma vez?; coisas da mocidade e assim por diante. Sobraram argumentos para considerar como um episódio menor o bebedeira.

Alívio geral ao vê-lo de novo a treinar. A honra da pátria está salva, pois a Justiça lhe foi misericordiosa (continuar a responder a processo, mas isso é lá pra frente). Vidal jogará.

E os professores em greve, o que têm a ver com a história?

Tudo e nada. Os “maestros” não provocam comoção porque são gente comum,  do povo, anônimos do dia a dia. A situação deles retratam as dificuldades do cotidiano. Já um jogador de futebol, ainda mais da importância de Vidal, mexe com sentimentos  de patriotismo. Sem contar que é personalidade, tem sucesso, se destaca; vive vida de sonho inalcançável para a maioria das pessoas. Portanto, merece compreensão especial.

A vida é assim. E não só no Chile.