Ou vai ou racha*

Antero Greco

22 de setembro de 2013 | 14h13

O Corinthians dos últimos dois anos e lá vai fumaça viveu numa bem-aventurança de dar gosto. Foi uma calmaria total, ganhou títulos de toda qualidade e esteve imune às oscilações que cercaram seus rivais paulistas. O Parque São Jorge teve a paz e a harmonia de um mosteiro de capuchinhos. Só não escrevo que era ilha de tranquilidade, porque, além de ser lugar-comum de péssimo gosto, isso me remete a slogan de triste memória das décadas de 1960 e 1970. Época em que tudo por aqui ia bem, obrigado, mas à força de mordaça.

O certo é que, nesse período, o sossego alvinegro encheu de orgulho o torcedor. A maré virou no Campeonato Brasileiro atual, o timão da nau corintiana deu defeito, os resultados não aparecem e o tempo esquentou. A ponto de a equipe enfrentar o Cruzeiro, na tarde de hoje, sob uma pressão de lascar. O Pacaembu, tão acolhedor e maternal, pode ficar mais carrancudo que boitatá. A Fiel vai fazer o barulho de sempre, porém anda com jeito de não ter muita paciência.

Resumo da conversa: ou vai ou racha pra Tite e rapaziada. A memória dos cinco troféus erguidos sob o comando do professor gaúcho pode virar pó, se ocorrer nova derrapada. Em circunstâncias normais, não haveria um resquício de vergonha em eventual derrota para os mineiros. O Cruzeiro lidera a competição com folga e méritos. Tem jogado com harmonia e eficiência impecáveis – como o Corinthians da temporada passada, na Taça Libertadores e na disputa do Mundial de Clubes.

A situação, no entanto, é bem diferente. O time pegador, envolvente, letal e sem pressa para ser predador, pediu licença de uns meses para cá, saiu de cena e deixou no lugar dele um grupo indolente e vagaroso, pacato e sereno, que não tem feito mal a ninguém. Aquele sujeito que não quer confusão. Em futebol, isso não funciona – ou tem efeito pernicioso. O Corinthians ganhou um ponto em 15 disputados nas rodadas recentes, saiu da luta pelo título e, se vacilar, começa a sentir o calor do inferno da parte de baixo da tabela.

Tite sabe que tem de sacudir o time, os jogadores idem. E a reação tem de vir com o elenco atual, não há alternativa. A turma é essa, com os mesmos Danilo, Romarinho, Emerson Sheik, Alessandro, Douglas, Guerrero de outros carnavais e que tiraram o pé do acelerador. E Pato, que veio neste carnaval, vira e mexe ensaia arrancada apoteótica, para de novo emperrar.

Dessa moçada que virá a resposta para a instabilidade. Se levar uma surra neste domingo, Tite pode até pegar o boné, limpar o armário no clube e ir cantar em outra freguesia. Os jogadores, porém, continuarão a ser os mesmos, não tem como chamar ninguém. A bola está com eles, a missão é deles, e como tenho surtos de otimismo – ou é descarado espírito de porco cultivado nas ruas do Bom Retiro -, arrisco dizer que hoje é dia de redenção corintiana. Aposto na surpresa e não na lógica.

Quem te viu… Até dez dias atrás, não faltava são-paulino a roer as unhas, morto de medo de que a Segunda Divisão seria o destino inevitável de Rogério Ceni & seus blue caps em 2014. O cenário se mostrava pavoroso, a rabeira na classificação era iminente, um deus nos-acuda que vou te contar. Bastaram três vitórias em seguida, desde a chegada de Muricy Ramalho, e não é que a conversa agora gira em torno de brigar por vaga na Libertadores?!

Que audácia, que mudança de postura, de astral. O que fazem nove pontos ganhos. E, quer saber?, concordo com isso, não encaro como presunção, e sim sinal de confiança. Melhor ter pensamento positivo do que já entrar derrotado em campo, com ar de ó vida, ó azar, como sou coitadinho. Só não vale andar nas nuvens, pois o São Paulo tem 27 pontos, está a 11 do quarto colocado (o Atlético-PR) e 3 apenas acima da zona de rebaixamento. Quer dizer, o fantasma da Segundona ainda ronda.

O sonho de grandeza ganhará forma, se superar o Goiás, desafio tinhoso. Taí prova de fogo para a fase de ressurgimento tricolor.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 22/9/2013.)

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