Pagar o pato*

Antero Greco

18 de setembro de 2011 | 11h31

Rogério Ceni apimentou a semana ao afirmar, em entrevista ao Bem, Amigos, que metade das faltas que Neymar sofre não passa de encenação. A declaração provocou frufru danado, com direito ao astro do Santos responder que o goleiro do São Paulo é chato pra caramba. Achei a estatística exagerada – rebaixaria o índice de fingimento para 25% -, mas divertida a polêmica. Em tempos de enxurrada de manifestações politicamente corretas e insossas no futebol, cai bem uma observação mordaz e fora dos padrões. E foi o que fez 01 tricolor.

O ensaio de bate-boca já serve de aperitivo para o San-São marcado para 3 de dezembro, na última rodada. Imaginou se nesse dia o São Paulo (hoje vice-líder) precisar da vitória para o título e o Neymar fizer a molecagem de acabar com o jogo? Ou se o Rogério fechar o gol e, de quebra, deixar o seu, de falta ou pênalti? Será o máximo. Duelo pra não perder.

Quem não tem nada a ver com a história e pode entrar bem é o Corinthians. Tite e sua turma passaram a semana quietos, na moita, só a treinar e a espiar de longe a picuinha. O ambiente no Parque São Jorge não está levezinho como o Liedson e aumenta a pressão por causa dos resultados de São Paulo e Vasco. Então, o melhor é não cutucar a onça santista. Se possível, não custa dar uma força na tentativa de acalmar a fera. Assim agiu Emerson, ao colocar-se ao lado da jovem estrela e admitir que os zagueiros batem.

Não sei se vai adiantar a manobra diplomática engendrada no Corinthians. Neymar passou os últimos dias a remoer a desconfiança de Rogério Ceni – que, a bem da verdade, também o considera um craque e disse isso no programa do SporTV – e pode cismar de encarar a marcação de forma mais incisiva. Se isso acontecer, Chicão, Leandro Castán & Cia vão pagar a conta. Será que era isso que o Rogério Ceni pretendia? Não o vejo maquiavélico a tal ponto.

A ameaça não se mostra tão irreal, independentemente da azucrinação. Trata-se, não custa lembrar, do mais antigo clássico paulista, à beira do centenário. Significa que tem história de sobra em jogo no Pacaembu na tarde deste domingo. Tradição à parte, há o momento das duas equipes – e o do Santos (29 pontos) é melhor, ou menos instável.

O campeão da Libertadores andou à deriva, após a conquista da América. Também se viu debilitado por constantes baixas, provocadas por contusões, suspensões e sobretudo por convocações para seleções. Enfim, por todos esses “ões”… Aos poucos, entrou na normalidade e os resultados aparecem. Nas últimas dez rodadas, o aproveitamento mostrou crescimento aceitável, com 5 vitórias, 3 empates e duas derrotas. O time de Muricy Ramalho ainda flana no meio da tabela, e não o percebo na briga pelo título. De qualquer maneira, embala, de olho no Mundial de Clubes, e conta com a fase muito produtiva de Borges, o artilheiro do Brasileiro.

O Corinthians (43) se equilibrou na liderança por diversas semanas, mas a corda fica cada vez mais bamba sob seus pés. Entra em campo hoje em terceiro lugar. Também na dezena de apresentações mais recentes o balanço não permite sorriso confiante: foram 3 vitórias, contra 3 empates e 4 derrotas. Por mais que Tite se esforce em comprovar o contrário, a equipe está em declínio. Não despencou mais porque os concorrentes diretos pisam na bola.

O conforto corintiano fica no fato de que, na tarde de hoje, poderá contar com força máxima. O que não é garantia de excelência, mas certeza de entrosamento. E isso pesa. Se bem que esse papo de o Neymar estar aborrecido com o Rogério Ceni me deixa com a pulga atrás da orelha…

*(Parte principal da minha coluna no Estado de hoje, dia 18/9/2011.)

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