Para não perder o pique*

Antero Greco

23 de junho de 2013 | 00h46

O povo andava desacostumado de ir pra rua para protestar. E, ao sair da letargia, começou com um objetivo específico (reclamar do aumento da tarifa do transporte público), tomou gosto e, nos últimos dias, passou a atirar pra todo lado. Despejou bronca sobre políticos, corrupção, abandono da saúde e da educação, PEC37, reforma agrária, até chegar à Copa das Confederações, ao Mundial e aos Jogos de 2016. A farra da gastança na área esportiva só agora ganhou repercussão, apesar dos alertas de vozes isoladas nos últimos seis anos.

Os desdobramentos das passeatas têm merecido análises sérias, nos meios de comunicação, e se percebe que deixam perplexos sociólogos, cientistas políticos e governantes. Eu não iria me meter a dar opinião em área alheia. Certamente, cometeria pênalti. Por isso, fico no meu canto a observar.

Mas já que o futebol entrou na mira dos manifestantes de variadas tendências e classes sociais, me atrevo a fazer algumas considerações. Porque frequento essa seara há décadas – primeiro, como torcedor fanático, daqueles de tomar chuva e bordoadas por causa do time. Depois, e principalmente, como profissional, de jornal e televisão.

A turma que pretende deitar tudo abaixo, na base da persuasão ou da pancada, despejou ira sobre a Fifa (que desembarcou aqui botando banca), a CBF e figuras emblemáticas do imaginário popular, como Ronaldo e Pelé, por entender que pertencem ao mesmo meio. O mundo deles é o da bola, e posturas são tomadas por interesses ou por maior ou menor grau de discernimento. O Rei do Futebol é embaixador do Mundial de 14, enquanto o Fenômeno assumiu cargo no Comitê Organizador Local e dele não abre mão. Poderia, se quisesse, se livrar do mico.

A gente que bradou slogans contra a Copa fez com que Blatter se escafedesse antes do tempo (com a promessa de voltar para a final), levou Marin a encolher-se e ouviu da presidente Dilma Rousseff promessa de que o governo vai até o fim na realização das duas competições e que o dinheiro público usado nos estádios retornará aos cofres, pois se trata de empréstimos.

Fica a dúvida. Verbas destinadas a clubes, como Inter, Atlético-PR, Corinthians, terão de ser amortizadas. E, espera-se, sem calotes. Mas e aquelas levadas para municípios e estados responsáveis pelas praças esportivas? Eram necessárias? Aliás, elefantes brancos, como o de Brasília, foram erguidos por quê? Com o consentimento de quem? E quem vai mantê-los? E como explicar, por exemplo, o bilhão de reais torrado no Maracanã, para em seguida repassá-lo para iniciativa privada? Por que não se fez parceria antes da reforma?

As cobranças são pertinentes, apesar de virem tarde, no que se refere a esses eventos. A onda moralista pode ter consequências benéficas no futebol, se o manifestante/torcedor fizer a parte dele. Como? Ao não apoiar dirigente corrupto, nem se deixar iludir pelo conformismo do “rouba, mas faz” (igualzinho ao da política). Se não achar que vale tudo por vitória de sua equipe (até o malfadado “gol de mão” ou vitória com ajuda do juiz). Se continuar calado diante dos abusos e violência de bandos organizados. Se defender liberdade de expressão dos fãs adversários nos estádios.

Mas o torcedor/consumidor também pode ajudar ao exigir preços justos nos ingressos e nos serviços das tais arenas, se ajudar a conservar banheiros e áreas comuns, se não se submeter à chantagem dos flanelinhas e cambistas, se não furar fila, se respeitar o assento dos outros. (Vaiar o time e xingar juiz pode, vai.)

Ajuda, no futebol e no cotidiano, se as pessoas reaprenderem a usar expressões simples como bom dia, boa tarde, por favor, obrigado; se não oferecerem propina para livrar-se de multa; se não falsificarem carteirinha para entrar no cinema, no teatro, no estádio; se não arranjarem atestados fajutos; se devolverem o troco dado a mais, etc. Enfim, se abrirem mão das pequenas transgressões que legitimam as grandes e contra as quais agora dizem combater.

*(Minha coluna publicada na primeira edição do Estado de hoje, dia 23/6/2013.)

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