PC Gusmão pisa na bola e fica com saldo negativo

Antero Greco

20 de janeiro de 2011 | 01h03

Personagens públicos com frequência ousam recorrer a frases de efeito e o máximo que conseguem é meter os pés pelas mãos. Paulo César Gusmão é o mais recente exemplo de alguém que pretendeu jogar para a galera e faz gol contra. O técnico considerou normais as críticas da torcida ao time, após a derrota para o Rezende (1 a 0, em casa), na noite desta quarta-feira, disse que os jogadores precisam conviver com as cobranças e, para reforçar, sua opinião, soltou pérola de mau gosto: “Quem não quer pressão, deve trabalhar em banco.”

Não costumo alinhar-me ao coro dos politicamente corretos, acho enorme chatice a tendência a transformar o futebol em coisa certinha, quadrada e insossa. Enfim, gosto daqueles que se atrevem a fugir do lugar-comum, nos dribles e nas declarações. E entendo que PC Gusmão teve a pretensão de fazer um jogo de palavras. Foi mal e não tenho como concordar com disparate de tal envergadura. Na escorregada, mostrou desconhecimento mastodôntico a respeito da atividade dos bancários e poderia ter passado sem essa.

O trabalho em bancos – e isso está provado – é das atividades profissionais mais estressantes que há. Se PC tiver curiosidade de consultar sindicatos da categoria ou registros do INSS, vai ficar de queixo caído com o índice de licenças, afastamentos, aposentadorias precoces, tratamentos psiquiátricos provocados pela rotina do trabalho nos bancos. Lidar com cifras, com dinheiro dos outros, com contas que devem estar obsessivamente corretas é de tirar o sono e a saúde de muita gente. Bancários sofrem pressão absurda – e os salários e os benefícios estão longe, na imensa maioria dos casos, de terão compensação proporcional.

Vida de treinador também não é fácil, pois é xingado, cobrado, ameaçado pelo menos duas vezes por semana. Mas lhe resta como consolo estipêndios generosos e outras benesses – pelo menos para aqueles que atuam em clubes de ponta, como é o caso do Vasco. Não me importa o salário d e PC Gusmão e torço para que seja sempre bem pago. Mas viro mico de circo, se não for quilometricamente mais polpudo do que o de milhares de bancários, os guardiães da grana de figurões como o ilustre treinador.

Em tempo: ou o Vasco de acerta logo, ou haverá batata assando com rapidez em São Januário.

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