Pequenas alegrias*

Antero Greco

19 de fevereiro de 2012 | 11h46

Parece sina do homem ficar à espera do grande acontecimento, do episódio que mudará tudo e marcará a existência. Ganhar sozinho na Mega Sena acumulada, talvez. Ter aumento de fazer o queixo cair, quem sabe? Ser promovido e virar o maioral, por que não? Receber herança de um distante tio milionário, já imaginou? Nessa expectativa, a vida passa em ritmo de reco-reco e não acontece nada. Melhor fisgar bons momentos e curtir as pequenas alegrias com as quais topamos.

 Este preceito de autoajuda de boteco pode aplicar-se à torcida do Palmeiras, e não lhe fará mal. Altiva, tem andado cabisbaixa e cismada, por acúmulo de decepções. Só que nestes dias os ventos sopram com suavidade para os lados alviverdes. O time coleciona vitórias, que o deixam saborear o carnaval com os mesmos 20 pontos do Corinthians, mas na liderança nos critérios de desempate.

Não é muito, sei. Mais adiante vêm os mata-matas e o sonho corre risco de virar fumaça. Mas a maré mansa dá satisfação – e isso conta. O palestrino pode desfilar neste feriado todo garboso e não se sentirá por baixo em discussões entre uma picanha e uma linguiça. Carpe diem, curta o presente, sugeria o poeta Horácio, há dois mil anos. Os romanos de então não eram tontos (ainda).

O Palmeiras atravessa inusitada fase de calmaria e aproveita a competição doméstica para ajustar-se. A base é a mesma que não deu no couro no ano passado; há falhas, brechas, buracos a serem tapados, como Felipão se apressa em reconhecer. O elenco não dispõe de um astro que arrase defesas e atraia multidões. A torcida nem de longe enxerga, no grupo de hoje, figurinhas carimbadas como Rivaldo, Edmundo, Evair, César Sampaio, Mazinho, Zinho e outros de igual calibre que compuseram a última versão da Academia, nos anos 1990 de venerável memória.

Apesar disso, há valor nos moços que disputam o Paulista. (Não esqueça que falo de pequenos prazeres.) Artur e Juninho, por exemplo, chegaram com desenvoltura. O primeiro marcou três gols e deu susto ao se machucar nos 3 a 2 de anteontem em Guaratinguetá. O outro tem sido firme na defesa. Henrique voltou a jogar direito, como fazia antes da aventura malsucedida no exterior.

Marcos Assunção é o centro em torno do qual gravitam as principais jogadas. Os pés ficam mais calibrados quanto mais avança a idade. As torcidas (a do Palmeiras e a dos rivais) prendem a respiração quando tem falta perto da área. No mínimo, Assunção obriga o goleiro a esticar-se até não poder mais. Suas cobranças de escanteio são impecáveis.

Daniel Carvalho, com perfil menos rotundo, compensa com toque de bola de qualidade. Não faz o fã ter saudade de Valdivia, sempre na enfermaria. Márcio Araújo, o contundido Luan, são limitados e combativos, assim como o veloz Maikon Leite. O argentino Barcos está cada dia mais à vontade.

Testes complicados virão nas etapas seguintes e logo mais na Copa do Brasil. É para euforia? Melhor não. Mas devaneios não são proibidos. Muito menos as pequenas alegrias.

Bloco B Alvinegro. Tite colocou o time reserva do Corinthians na passarela do Anacleto Campanella, não se arrependeu e deu a lógica: vitória sobre o São Caetano. Chamaram a atenção Douglas e Adriano, ambos com formas arredondadas. O meia mostrou bom toque de bola e construiu a jogada do gol de Willian. O atacante se esforçou, mas está sem noção de espaço. Só não passou despercebido porque não há como ignorar alguém do porte dele. Mais paciência…

 *(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 19/2/2012.)

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