Perseverante ou cabeçudo?*

Antero Greco

24 de abril de 2013 | 13h37

A seleção brasileira faz nesta noite, em Belo Horizonte, mais um desses amistosos de discutível utilidade, pois não conta com jogadores que atuam no exterior. E, se o propósito é afinar o time para a Copa das Confederações, o jogo com o Chile perde sentido. Fica como desculpa – a ser aceita só com generosa dose de boa vontade -, a chance de Felipão observar atletas caseiros para preencher a lista dos que disputarão a competição programada para junho.

Provocou alarido a afirmação do treinador, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que a presença de volantes marcadores e criativos é opção bem aceita por torcedores e crítica, mas de serventia duvidosa para a equipe. Em sua visão, a função primordial desses rapazes é a de dar guarida ao sistema defensivo, são uma espécie de bastião da área. Não é à toa que chega a utilizar até três cães de guarda nas equipes que dirige.

A postura do treinador frustra quem imagina ver o Brasil ligeirinho e solto, com meio-campistas como Ramires e Paulinho, aos quais recorreu na reestreia no cargo, contra a Inglaterra. A derrota reforçou-lhe a convicção de que a segurança vem em primeiro lugar. Algo como: esse negócio de jogar bonito serve pra vender imagem, para os analistas escreverem poesia. Quem tem de fazer gols são os atacantes. Tenho dito e não se discute mais.

Surpresa pra você o que diz agora o técnico? Pra mim, nenhuma. Lembro que, tão logo Felipão divulgou a relação inicial de convocados para ir para Londres, escrevi aqui que era agradável ver jogadores de meio com características mais técnicas. Ainda externei minha torcida para que não se tratasse de lapso da parte dele e que ousasse trilhar esse caminho. Foi lapso mesmo.

Não se pode negar, porém, coerência. Pegue a carreira de Luiz Felipe Scolari e constatará que, na maior parte das vezes, jogou com formação tradicional, com zagueiros, laterais ou alas, volantes marcadores, um (às vezes dois) meia de criação e atacantes. Fórmula simples, sem invenção, que lhe valeu títulos dos mais variados matizes – até o penta mundial, em 2002.

Querer que mude agora é sonho – as pessoas tendem a consolidar convicções ao longo da vida e chega um ponto em que não abrem mão delas. Não têm sequer vontade de testar alternativas diferentes daquelas que já conhecem. E aqui não vai crítica, nem preconceito com idade de quem quer que seja; apenas constatação. Veja em sua profissão.

Por falar em 2002, Felipão lembrou que aquela seleção vitoriosa tinha Gilberto Silva e Kleberson, clássicos volantes de contenção, como se diz hoje em dia, em lugar de cabeça de área. Algumas vezes, contaram ainda com o reforço adicional de Edmilson. Verdade. Lembrou ainda que, em 1994, jogavam Mauro Silva e Dunga no meio de campo na campanha do tetra.

Mas tanto numa como noutra ocasião havia atacantes que arrasavam. Nos Estados Unidos, Romário foi incontrolável e Bebeto, funcional. Na Ásia, o trio Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho arrasou adversários. Ou seja, mesmo com vários atletas com a incumbência de fechar espaços na defesa, a compensação vinha com astros ofensivos, com definidores de qualidade acima da média.

Esse detalhe faz diferença? Em geral sim, mas não é regra. O Brasil já teve craques de encher os olhos e não venceu (1982, com Falcão, Zico e Sócrates, entre outros, e 2006 – Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, de novo, são exemplos). Como não é indesmentível a tese de Felipão de que grupo vencedor tenha de ser necessariamente pegador. Em 1990 (Dunga e Alemão) e 2010 (Felipe Melo e Gilberto Silva), preocupou-se com marcação e não venceu. Em compensação, no tri, em 58, 62 e 70, havia marcadores como um Zito ou um Clodoaldo – e olhe lá. E ambos fizeram gols nas Copas.

O que se espera de Felipão é bom senso na escolha dos nomes, que leve os melhores. No mais, o risco será dele: se vencer, terá sido perseverante. Se perder, um cabeça-dura.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 24/4/2013.)

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