“Piano, piano…”*

Antero Greco

08 de abril de 2011 | 14h08

Já que escrevo com um olho na telinha do computador e com outro na telona dos horários de embarque do aeroporto de Malpensa/Milão, recorro a antigo e manjado ditado italiano, conhecido também no Brasil, para definir o espírito desta crônica. “Piano, piano, se vá lontano.” Ou seja: devagar se vai longe; devagar e sempre. Cansei de ouvir isso no Bom Retiro.

O mote para a conversa desta sexta-feira surgiu ontem pela manhã, de estalo, ao ler nos jornais do Bel Paese a repercussão da surra sem dó que a Internazionale levou do Schalke04, na noite de terça-feira. Os 5 a 2 na cacunda doeram, calaram fundo no orgulho dos atuais campeões europeus e mundiais. Para não fugir à regra, sobrou para Leonardo. O jovem treinador (41 anos) levou bordoada da crítica esportiva e já há quem coloque em dúvida sua capacidade para ter sucesso na nova profissão.

Não sou pessimista, mas um artigo de Mario Sconcerti, no Corriere della Sera, me fez pensar no assunto. O cronista fez análise ponderada a respeito de Leonardo, em quem vê qualidades e caráter. Exalta sobretudo sua coragem de ter-se liberado da influência de Berlusconi, ao qual serviu por mais de uma década, como jogador, dirigente e treinador. No entanto, o considera imaturo para a assumir função de tamanha responsabilidade em clubes importantes como Inter (e, antes, o Milan) sem experiência prévia. “Leonardo por ora é um grande motivador, não um técnico”, define.

Eis um conceito a ser desenvolvido. A todo momento nos ocupamos com decisões e com o destino dos treinadores – os “misters” como são chamados por aqui, ou os “professores” como são reconhecidos no Brasil. Com frequência têm espaço igual, senão maior, do que os jogadores no noticiário dos clubes. Nos preocupamos com o que pensam, com quanto ganham, com suas propostas de jogo, com os “projetos”… Há tendência a supervalorizá-los.

Prefiro a medida justa, que seria reconhecer o valor de seu trabalho, sem considerá-los semideuses. Como em qualquer profissão, aposto no tempo, na experiência, no aprendizado. Queimar etapas não é saudável e, exceto para os gênios, os riscos de fracasso crescem e muitas vezes se impõem.

Cito como exemplo minha profissão, não por vaidade, mas por conhecer a realidade dela. Quando comecei na editoria de Esportes aqui mesmo no Estadão, no final dos finados anos 1970, cobria assuntos mais leves, times de segunda linha. Com o tempo, fiz jogos no interior, depois partidas da Libertadores, até chegar a amistosos da seleção – mas não o comentário do jogo, apenas os assuntos periféricos!

Mais tarde sobraram um joguinho da seleção e uma Copa América, até o chefe concluir que eu estava pronto para uma Copa do Mundo. E lá fui eu para a Espanha, já calejado e ainda assim com baita medo. Hoje, por diversos motivos, um foca (como chamamos os iniciantes) pode ver-se diante do desafio de acompanhar a seleção, e muitos quebram a cara. Não por incapacidade, mas por imaturidade. Pularam etapas. Com adaptações, serve para outras categorias.

O mesmo tem acontecido no futebol. Não são raros os episódios de ex-jogadores, em geral de ótima qualidade, promovidos para comandar elencos profissionais, ou seleções, pouco tempo depois de pendurarem as chuteiras. Me vêm em mente Falcão (substituto de Lazaroni em 1990 e que durou até a Copa América de 1991), Dunga (de agosto de 2006 até a Copa da África), Roberto Donadoni (técnico da Itália entre 2006 e 2008), Maradona (que comandou a Argentina de 2008 até o Mundial), Marco Van Basten (responsável pela Holanda na Copa de 2006 e na Euro-2008).

Nenhum deles atingiu o ápice – um título mundial, como Franz Beckenbauer, em 1990. (Mas o alemão é a exceção para confirmar a regra.) E tiveram dificuldade, em seguida, para firmar-se, para recomeçar. Alguns mudaram de atividade.

Felipão, Zagallo, Feola, Parreira, Lippi, Del Bosque pegaram muito rabo de foguete antes de chegar à glória. Quem sabe Leonardo e outros jovens técnicos não tomem isso como lição?

*(Texto da minha coluna publicada no Estadão de hoje, dia 8/4/2011)

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