Para ou continua?*

Antero Greco

29 de setembro de 2013 | 12h53

A tevê, vira e mexe, apela para audiência garantida do jogo de perguntas e respostas que acena com perspectiva de o candidato faturar grana alta. Para tanto, deve estar afiado em conhecimentos gerais (ou num tema específico) e ter coragem de encarar etapas cada vez mais complicadas, à medida que dribla o questionário com as pegadinhas propostas pela produção e pelo apresentador. A bolada vem no final.

Há o risco – bem comum – de o sujeito empolgar-se com o desempenho, de os olhos crescerem diante de cifras gordas até cair das nuvens por causa de uma questão capciosa. Para decepção do público, e alívio do caixa da emissora, ele volta pra casa de mãos abanando ou com trocadinhos que servem para uma feira razoável.

Decidir o momento certo de parar se mostra o maior desafio em programas do tipo Show do Milhão. E como frustram escolhas fora de hora! Assim como na atração da telinha, há dificuldade enorme na vida para se perceber o instante de sair de cena e se dar bem. Obstáculo muito comum no mundo do espetáculo, aí incluído o futebol. Quem se habitua ao palco, às luzes, à notoriedade, aos aplausos tende a considerar que o brilho jamais passará. Tenta segurar o tempo com as mãos.

Ou com os pés, como se pode conferir na reportagem sobre o Rivaldo, na contracapa desta Edição de Esportes. O pentacampeão mundial já desfolhou mais de 40 calendários, rodou por Ceca, Meca e currais de Santarém (tenho lido muita literatura portuguesa ultimamente…), ganhou tudo quanto foi prêmio, mas não pendura as chuteiras.

Não há Cristo que o convença a ficar quieto em casa e esquecer a rotina de treinos, viagens, concentração. A necessidade de prorrogar o chute final é tamanha que se sujeita até ao banco de reservas do São Caetano, que luta para não baixar para a Terceira Divisão.

Não se trata de caso isolado. Como Rivaldo há incontáveis histórias semelhantes. Não é à toa que com frequência a gente confere uma escalação qualquer e topa com um nome que não soa estranho, acompanhado da pergunta. “Mas é Fulano aquele?!” Em geral, sim, é aquele mesmo, que pensamos já serenamente a curtir pescaria e churrasco.

Um exemplo? Túlio Maravilha. Com 43 anos, o centroavante que conquistou plateias (a do Botafogo, sobretudo)perambula pelo Brasil à cata do milésimo gol, de acordo com contagem bem pessoal e peculiar. Se é teimosia, aperto financeiro, miolo mole, não sei nem me importa. Quando menos se espera, aparece paramentado com camisa, calção, meião e chuteira a correr atrás dessa proeza em divididas com jovens com idade para chamá-lo de papai. Sonho dele, e quem somos, eu e você, para criticá-lo? Busca da felicidade e tentativa de driblar a morte nos movem desde que deixamos o bem-bom e a serena escuridão do ventre materno.

Veteranos da bola espalham-se pelos gramados porque o mercado os acolhe, se não pela produtividade atual, pela história de cada um, pela lembrança do que já foram. Eis um risco danado – para clube, torcedor, profissional. Todos esperam os dribles de anteontem, que ficaram lá atrás. O choque de realidade provoca estragos imensos na autoestima.

Torço sempre para que jogadores, famosos ou não, tenham sensibilidade de parar antes de se tornarem sombras de si mesmos. Injusto serem tratados com piedade, desdém, chacota. Porém, defendo o direito de resolverem por conta própria dilema tão íntimo e intransferível.

Angústias. Duas partidas mexerão hoje com os nervos de três equipes paulistas. O São Paulo anda às voltas, ainda, com o fantasma do rebaixamento, que parecia enxotado dias atrás, após três vitórias em seguida. O ataque voltou a emperrar (21 gols, o terceiro pior) e o desafio desta vez é o Grêmio, imprevisível e inquietante. Empate não surpreenderá.

A Lusa igualmente se assusta com o retrocesso, mas tem subido e mostra ousadia. Não será anormal se atormentar o Corinthians, que desaprendeu a comemorar gols.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 29/9/2013.)

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