Protestos que chegam tarde

Antero Greco

15 de junho de 2013 | 13h18

Manifestações populares são importantes e reveladoras, independentemente de contornos políticos que possam carregar. Quando as pessoas externam o que pensam, reivindicam e cobram se sentem participativas, vivas. É um exercício de cidadania, apesar de abusos que são cometidos e que, com maturidade e tempo, poderão ser evitados.

Agora, por exemplo, despontam protestos aqui e ali contra gastos excessivos nas obras para a Copa das Confederações e para o Mundial do ano que vem. Gente saiu às ruas em Brasília, no Rio, em São Paulo e há passeatas previstas para outras cidades. No embalo da agitação provocada com as reclamações contra aumento na tarifa de transportes públicos, muitos jovens resolveram botar a boca no trombone contra esses desmandos.

Legítimo o sentimento e é bom que a juventude se mexa e saia do mundo virtual de smartphones, aplicativos, computadores e o escambau. É preciso que cartolas e políticos saibam do descontentamento que provoca a farra de dinheiro jogado em construções, sobretudo em estádios. Isso fere princípios do bom senso. O país necessita de investimentos em áreas imprescindíveis, como saúde, educação, segurança, infraestrutura, e não em alguns elefantes brancos. É bom “buzinar” o ouvido de quem manda.

Só que o clamor popular chega tarde. Agora não adianta mostrar reprovação contra a gastança. As obras estão em andamento, os orçamentos estouram e sobem a cada dia, sob os mais diversos argumentos, e não tem como suspender coisa nenhuma. O estrago está feito, sob o nosso nariz, e pouco vão se lixar com o descontentamento dos anônimos, que somos a imensa maioria. Inês é morta.

O puxão de orelhas deveria ter sido feito seis anos atrás, quando o Brasil foi escolhido para organizar o Mundial. Assim que começaram a surgir os planos faraônicos, o povo tinha de firmar posição, para deixar espertos aqueles que iriam mexer com o dinheiro.

O alerta foi feito por gente séria e independente, mas passou batido diante da euforia geral. Sinto-me à vontade para escrever, porque na época gastei saliva e papel para contestar. Não fui omisso nem conformista. Críticos contestavam a promessa do então presidente da CBF, que garantia que a Copa seria feita toda com “participação da iniciativa privada”. Teve quem acreditasse nisso…

Agora, a ficha começa a cair. Ok, há quem apele para o tradicional “antes tarde do que nunca” e que agora o momento é adequado para visibilidade. Tem valor, melhor isso do que o “sono esplêndido”. Mas o importante era evitar o descaramento nos gastos muito antes, e isso não se conseguiu, porque dormimos no ponto. Quem sabe se poupe algum trocado daqui em diante…  E, nunca é demais lembrar, logo mais vem a Olimpíada.

Mas temo que na hora em que prevalecer o clima de oba-oba com o Mundial (ou até com a Copa das Confederações), mesmo os que reclamavam voltarão atrás e entrarão na festa. Pena, mas é assim que acontece.

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