Quando dirigente explica demais e exagera

Antero Greco

08 de agosto de 2013 | 20h15

Vida de dirigente parece, mas nem sempre é moleza. O sujeito tem de dar declarações sobre um monte de coisas – de contratações a dispensas, de calendário e programação de treinos, de planos de viagens a arbitragens. Se bobear, até do preço do dólar.

Como costuma andar na corda bamba, muitas vezes faz uns comentários que não resistem a uma análise mais crítica. Veja, por exemplo, o caso de Edu Gaspar. Nesta quinta-feira, o gerente de futebol do Corinthians se viu obrigado a falar de Pato, centrovante trazido do Milan e em torno do qual se criou muita expectativa.

Já está por aqui desde o começo do ano, penou com algumas contusões e tem sido utilizado com muita economia pelo técnico Tite. Não é titular, embora tenha marcado alguns gols. Ultimamente, deixa o torcedor com a pulga atrás da orelha, como no clássico de quarta-feira com o Santos em que praticamente não finalizou.

Pois bem, Edu alega que o moço está no último estágio de preparação, que se encontra a um passo de aproveitamento melhor e que logo terá mais presença em campo. Até aí tudo bem. Mas acrescentou que era preciso levar em conta que o Pato veio “e um futebol, árbitro, bola, tudo diferente”. É, até a bola é diferente… Aí o educado Edu exagerou.

Vá lá que passar anos fora de casa mexe com qualquer um. É preciso conceder, de fato, um tempo de readaptação. Mas não é tão diferente assim o que se faz na Europa com o que se coloca em prática aqui, sobretudo para um jovem talentoso.

O que dizer, então, de Seedorf, com quem Pato jogou no Milan? Ele é holandês, tem 36 anos, está na fase final da carreira e jamais jogou no Brasil. Veio e num instante se adaptou e virou líder do Botafogo. Fora ele, veteranos como Juninho Pernambucano, Alex, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho rodaram mundo, retornaram e ficaram à vontade, como se tivessem ido até a esquina.

E, por fim, mais uma questão: não se costuma dizer que é bom o jogador brasileiro sair para evoluir na Europa. Ora, os quatro ou cinco anos em Milão não serviram para desenvolver nada? Perdeu tempo por lá? Se serviram, deveria ter voltado um degrau acima dos demais.

Melhor seria dizer que Pato é um atleta que merece cuidados especiais, por características próprias. Mais sincero e menos fantasioso.

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