Que futebol queremos?

Antero Greco

11 de outubro de 2013 | 10h33

Muricy Ramalho tocou em tema interessante ao elogiar Ganso e Maicon pela excelente atuação na vitória do São Paulo sobre o Cruzeiro. O técnico alegou que as restrições recorrentes a ambos o surpreendem, pois se voltam contra jogadores que sabem tratar bem a bola, qualidade rara nos dias atuais. “O Ganso já conhecia e sei que além de tudo é inteligente e tem caráter”, lembrou. “O Maicon avança, corre, passa. Não entendo as críticas que fazem para ele.”

Na entusiasmada defesa aos meio-campistas, Muricy mostrou perplexidade ao lançar a pergunta: “Temos de ver que futebol queremos.” Ficou embutida resposta fácil e óbvia, ao menos na teoria: queremos futebol harmonioso, em que sobressaiam os artistas e definhem os brucutus. Viva o drible em campo, abaixo a botinada. Qualquer pessoa de bom senso abraça essa ideia.

Mas é o que vemos na prática? Infelizmente, não. O futebol pragmático, de resultados, aquele da vitória por meio a zero com gol de canela aos 47 do segundo tempo prevalece, no discurso e na prática – de dirigentes, treinadores, atletas, crônica esportiva e torcedores. A seleção brasileira de 1982 encantou o mundo, foi eliminada pela Itália na Copa da Espanha e até hoje, passadas três décadas, é citada como prova cabal de fracasso por quem alega que jogar bonito é inútil se não desaguar em triunfos.

O Barcelona dos últimos anos, tão elogiado e vencedor, também foi desdenhado em alguns tropeços (como o de 2012 diante do Chelsea), sob a alegação de que estava com estilo viciado. Os ingleses que se trancaram embaixo do gol em duas partidas tiveram estratégia perfeita, na visão imediatista, segundo a qual a história se escreve pelos vitoriosos, independentemente dos métodos utilizados para alcançá-la.

Por esse raciocínio, Zico, Falcão, Cerezo, Sócrates, Júnior, Oscar, Luisinho são perdedores no esporte porque não levantaram a taça mundial. Por extensão, eles valem menos do que Viola, Luizão, Branco, Márcio Santos, Anderson Polga, Vampeta, que retornaram com o troféu das aventuras de que participaram. Ambas as avaliações estão erradas. Uns e outros tiveram méritos e a análise não deve limitar-se ao fato de terem chegado ou não ao pódio. Há muito mais o que se levar em conta.

No dia a dia, predomina a “busca por três pontos”, como sempre enfatizou Jair Picerni. Os técnicos recebem pressão por todos os lados, perdem emprego a torto e a direito e, mesmo os mais calejados, cedem à tentação de retrancar as equipes, se a situação apertar. O Muricy, ao chegar ao São Paulo, reconheceu que o perigo do rebaixamento o levava a ter um time compacto, ou fechadinho na linguagem popular.

Quantas vezes você não ouviu professores e boleiros avisarem que, se o cidadão quer ver espetáculo, que vá ao teatro? Ou, se quiser sossego, que vá trabalhar em banco? Ou, ainda, repelem referências a grandes formações de outras épocas com “quem vive de passado é museu”, um clássico da grossura e do raciocínio tosco?

Claro que é bacana ouvir Muricy elogiar os astros. Não esqueço que uma vez me disse, no início do trabalho no Santos, que daria total liberdade para o Neymar, “porque esse cara vai trazer títulos pro clube”. E, de fato, trouxe a Libertadores de 2011, dentre outros. Torço para que mantenha sempre vivo o propósito de incentivar a criatividade, a ousadia, o talento. Muricy e todos os técnicos.

Não tem jeito, lá vem a cisma outra vez: haverá paciência para que impere o futebol bem jogado? Duvido, pois sempre roemos a corda e, tão logo o São Paulo volte a tropeçar, para ficar no mote da crônica, voltarão a ser criticados o Ganso (que, de fato, jogou demais no Mineirão), e estrelas menores como Maicon.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 11/10/2013.)

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