Quem chora a morte de outra vítima de estupidez de torcidas?

Antero Greco

24 de fevereiro de 2014 | 02h01

Começo de madrugada, estou aqui no escritório de casa a fazer uma varredura em notícias e em mensagens, com música suave de fundo. Tudo bem, até me deparar com a informação de que um jovem de 15 anos, torcedor do Santos, foi morto em briga com alguma facção de torcida do São Paulo. O moço, parece, tinha algum tipo de deficiência.

(Agora pela manhã, soube que foram dois ataques distintos: um resultou na morte de um homem de 34 anos. Outro levou à internação do adolescente, ainda sem maiores detalhes a respeito do estado de saúde dele.)

Alguém colocou, no tuíter, uma foto do rapaz caído, com longas poças de sangue a escorrer, para um ralo, como a vida dele. E, antes da dele, aconteceu o mesmo com a de tantos outros rapazes que foram vítimas da insanidade de quem usa o futebol para matar.

Na hora não se falou o nome da vítima – nem vem ao caso, embora agora se saiba quem seja.  Mais sei que ele será apenas mais um na estatística dessa guerra sem fim, entre gangues sem nenhum respeito pela vida, nem a própria, muito menos a de outros. O prazer, o sentido da existência para eles, está na destruição.

Li tuítes de jovens, aparentemente menores de idade, em que deixavam claro que pouco se lixavam com a morte. Se vangloriavam da queda de um “inimigo” e torciam para que estivesse “no inferno”. Inferno no qual esses moços já estão, mesmo vivos.

O torcedor que caiu hoje só vai alimentar estatísticas e manterá ativo esse círculo cruento de emboscadas, ódio, vendettas, mortes. Daqui a pouco, haverá as promessas oficiais de praxe, inócuas e hipócritas. Tristeza, mesmo, só para a família. Para pais que perderam um filho, por causa de futebol.

Desliguei o som, deletei a imagem chocante, batuquei este comentário e vou pra cama. Com sensação de impotência, amargura e raiva. Que droga de vida é essa?

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