Quem manda*

Antero Greco

14 de fevereiro de 2014 | 13h37

Em algum momento da vida, todos já ouvimos a recomendação de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Frase lapidar, que embute autoritarismo irrefutável. Lugar-comum que reforça noções de conformismo e aceitação de ordens, mesmo as mais estapafúrdias, sem abertura para questionamento, dúvidas, diálogo. E como topamos com isso no dia a dia…

Não há como dissociar a tremenda coincidência da reformulação no Corinthians com a invasão do Centro de Treinamento ocorrida quase duas semanas atrás. As cenas de intimidação, violência, grosseria, falta de educação e incivilidade foram antológicas. Quem viu de perto, ou sentiu na pele, diz que não esquece.

Passado o impacto inicial, com declarações levemente indignadas de dirigentes, o que aconteceu? Com os mal-educados, nada. Nenhum foi identificado, não há nem sequer traços evidentes de que houve o tumulto. Soa como ficção – até registros do circuito interno de câmeras de segurança apresentaram problemas. Por falhas pontuais, não se conseguiu filmar movimentação de torcedores no local. Que azar!

Ao mesmo tempo, nesse período bateram asas do Parque São Jorge indesejados como Pato, Douglas e o capitão Paulo André. Por casualidade, e nada além disso, três dos que estavam na lista negra dos fiéis embaixadores da paz. Restam Danilo e Sheik para arrumar as malas e fechar o grupo dos enjeitados.

A explicação oficial é a de que o processo de trocas estava previsto desde o retorno das férias. Argumento que depõe contra o planejamento do clube. Como se perdeu tempo precioso, no fim do ano, para tocar o projeto 2014. Tão velho quanto os contos da Carochinha o fato de que, terminada a temporada, já se coloca em andamento a preparação para a seguinte. Isso abrange dispensas, contratações, investimentos, despesas. E o Corinthians só acordou – por acaso, sem dúvida -, depois da tormenta no CT? Ou será que funcionou a máxima lá do primeiro parágrafo?

A debandada de Paulo André ganha significado que ultrapassa o Corinthians. Em termos técnicos, talvez não seja ausência sentida na equipe sonhada por Mano Menezes. Trata-se de zagueiro correto, na média do que há na posição. Não chega a ser craque, tampouco é perna de pau. Cumpriu função importante desde que Chicão perdeu lugar. Enfim, há quem colocar no lugar dele.

A transferência de Paulo André para a China representa golpe na liderança no elenco e, de maneira ampla, no Bom Senso FC. O movimento surgido em 2013 foi a maior novidade no futebol nacional nas últimas décadas. Surgiu como porta-voz de anseios dos atletas profissionais, despontou como uma pedra na vida de maus cartolas, um indício de que os boleiros pensam, refletem, têm desejos e frustrações.

E a participação de Paulo André foi fundamental. Por expressar-se bem, e com coerência, assumiu naturalmente o papel de mentor do Bom Senso, uma espécie de “presidente” informal. Com destemor pouco comum à categoria, criticou dirigentes, deu esculacho em Eurico Miranda, revelou faceta nada passiva.

Em uma palavra: incomodou. Com Paulo André na dianteira, o Bom Senso transformou-se em ameaça à rotina do nosso futebol. Ora, se falou até de greve! Um desaforo para os coronéis da bola. Como vai ganhar a vida longe pra chuchu, deixa de ser empecilho, E, por mais que Paulo André diga o contrário, sem ele o Bom Senso corre risco, iminente, de esvaziar-se. Para alegria de quem não quer evolução.

Racismo. Discriminação, seja qual for, merece desprezo. Ninguém é melhor do que ninguém – isso nem deveria discutir-se no século 21. Mas se reveste de nonsense a atitude de torcedores peruanos contra Tinga, do Cruzeiro. Nossos vizinhos são negros, índios, mestiços, amarelos ou brancos. Como nós. Variações humanas representadas nas arquibancadas do estádio e no time local. Vai entender a idiotice…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 14/2/2014.)

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