Regressos amargos*

Antero Greco

09 de setembro de 2011 | 13h30

Francesco De Gregori é um compositor italiano que há décadas faz músicas que pegam na veia e no coração. Sujeito extraordinário, poeta de alta sensibilidade, infelizmente quase desconhecido por aqui. Um Chico Buarque daquelas bandas, pra você ter uma noção da importância dele. Em Cardiologia, uma de suas obras-primas mais ou menos recentes, canta dois versos estonteantes: “Há amores do passado sempre vivos na memória/Porque do amor nada se joga fora”. Isso serve para a vida e para o esporte.

Não tenho talento para falar de dor de cotovelo amorosa – essa até hoje só soube sentir. Escrever a respeito de sobressaltos do afeto é tarefa para cronistas de fina estampa, como o Loyola, o Marcelo Paiva, o Veríssimo, para citar uns bambas da casa. Mas consigo entender frustrações de torcedores com ídolos, sobretudo daqueles que vão embora e mais tarde voltam. Tentativas de reatar, no futebol assim como no cotidiano, não têm regras fixas, porém com frequência caem no vazio. Não dão mais liga.

Pegue o caso de Valdivia. O rapaz desembarcou no Palestra Itália em 2006 com boas referências do Colo-Colo, cativou o público, virou “El Mago”, foi campeão paulista. No momento em que era mais paparicado se mandou para o futebol árabe, com a desculpa de praxe: o bonde da oportunidade passava carregado de dinheiro e não queria perder a viagem. Foi, ficou um tempo no ostracismo bem pago, não aconteceu nada por lá e voltou em 2010. Regressou como o Dom Sebastião aguardado para a redenção do time. Ou como o príncipe encantado para despertar a Bela Adormecida verde.

Até agora não vingou. Em um ano, passou mais tempo na enfermaria do que em campo. Chamou mais a atenção por uma dor aqui, uma dor ali e por exames inconclusivos do que pelo futebol. Falou-se dele mais por dúvidas a respeito dos métodos de tratamento e de rusgas veladas ou nem tanto com Felipão do que por passes, dribles ousados e gols que outrora estimularam carinho da torcida e fizeram o clube lançar-se na aventura de investir alto no resgate.

Enfim, neste período apareceu pouco do Mago que estava na lembrança afetiva do palmeirense. E, como ocorre com desilusões amorosas, a mágoa deu o ar da desgraça. Não é por acaso que parte da torcida passou a pegar no pé. Ele se fechou, murchou e agora fica o impasse: vai embora de novo, e de vez, ou fica? Diz que não quer abandonar o barco, a diretoria finge que repensa, mas está doida para recuperar um pouco da dinheirama que buscou em bancos para satisfazer o desejo de tê-lo no elenco.

O exemplo de Valdivia não é único. O próprio Palmeiras viveu casos parecidos e se dividiu entre martírio e glória. Evair saiu em 1994 e voltou em 1999 mais maduro e mais útil, algo parecido com o que ocorreu com Zinho e César Sampaio, o capitão do título na Libertadores. Já com Edmundo não foi assim, em sua segunda passagem, em 2007.

Outros? Vamos lá. Zico foi incomparável, quando surgiu no Flamengo. Não era o mesmo, ao retornar da Itália, em 1985. Roberto Dinamite foi para o Barcelona, em 1980, ficou só alguns meses e voltou correndo para o aconchego do Vasco, numa união perfeita e duradoura. Raí foi soberbo na primeira etapa de sua relação com o São Paulo e nada além de razoável na segunda, até passar por cirurgia e encerrar carreira.

A gente gastaria horas de conversas aqui com casos de segunda chance que deram certo e os que resultaram em furo n’água. Uma polêmica sem fim, pois o problema é que se idealiza muito no amor e no futebol. Quando as expectativas não são correspondidas, o sentimento de perda tende a crescer e, se bobear, acaba com o que teve de bom. Machuca, a ponto de o Mago hoje sofrer rejeição – ou, no mínimo, desconfiança – de parcela de palestrinos desacorçoados.

Valdivia tuitou ontem para explicar que não é chinelinho – “Ele é chileninho”, respondeu gaiatamente o parmerista diagramador Nilson Pasquinelli – , afirma que abriu mão de uma grana alta para regressar e garante que vai calar quem duvida dele.

Vai reconquistar afeto com a intenção de ficar? Não sei. Quantos casais voltam e se separam de novo? Pode ser o caso dele com o Palmeiras. É da vida e o tempo dirá. Sei que há amores que deveriam ficar guardados para sempre na memória pelo que foram no passado. Retomar é dar murro em ponta de faca e se ferir.

O De Gregori conhece a alma humana.

*(Texto da minha coluna publicada na primeira edição do Estado de hoje, dia 9/9/2011)

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