Retranca punida*

Antero Greco

12 de maio de 2014 | 11h30

O Corinthians tinha feito 1 a 0 no São Paulo, num jogo que andava chato pra burro. A vantagem veio no começo da fase final – portanto, com tempo suficiente para ser aumentada e transformar o clássico num espetáculo divertido. Daí, o que aconteceu? Em vez de acuar o adversário, ficou todo mundo atrás, na base do 9-1 ou 10-0, para quem gosta de números para ilustrar a linguagem tática.

A turma tricolor, mesmo sem grande apetite para o ataque, fez o óbvio e foi para a frente, já que o Corinthians montou barricadas na defesa e abdicou até de contragolpes. Poucos minutos antes do encerramento, conseguiu o empate e, por um triz, não chegou à virada. Os alvinegros tinham três pontos nas mãos, outra vitória a caminho, e voltaram pra casa com um. Castigo justo. Vão lamentar o quê?

Taí o resumo do que foi o Majestoso na tarde de ontem, no estádio de Barueri. Muito ruído para pouco futebol. A bem da verdade, de ambos os lados, mas descaradamente mais por parte do Corinthians. Como tem acontecido com frequência, desde a primeira rolada de bola, ficou claro que a estratégia do pessoal de Mano Menezes ambicionava acima de tudo não tomar gol. Depois, com calma, se possível, se houvesse brecha, se alguém criasse, se os outros deixassem, se o destino ajudasse… Enfim, se desse, se tentava marcar.

Não foi por acaso que a primeira finalização razoável saiu aos 37 minutos do primeiro tempo. E conclusão fraquinha, do Danilo. Depois, o Guerrero teve a oportunidade de dar vantagem ao Corinthians, mas Rogério evitou com bela defesa. Não foi muito diferente do lado tricolor, embora Muricy tivesse colocado Ademilson, Luís Fabiano e Osvaldo, numa demonstração de preferência para arriscar-se e pressionar.

A monotonia ameaçou sumir com o gol de Fagner, numa arrancada boa de Romarinho, que contou ainda com participação direta de Guerrero, no passe, e de Danilo, ao enganar a marcação. Pronto, ali estava a estrada para um jogo à altura do currículo das duas equipes. Agora a coisa ia pegar fogo, a ponto de fazer os viciados por bola e tevê esquecerem os espetáculos vistos pela manhã na Inglaterra (Manchester City campeão) e na Espanha (o Atlético de Madrid penou para empatar e decide na última rodada em Barcelona).

Engano. O São Paulo saiu em busca da igualdade, como era óbvio, e o Corinthians se encolheu mais do que camiseta chinesa depois da primeira lavada. O Guerrero ficou tão isolado adiante que resolveu também aparecer no campo de defesa, para ficar perto dos amigos e não morrer de saudade da turma e da bola, que não o procuravam.

Um horror, alternativa que empobreceu o jogo, esvaziou bolsões de emoção, derramou a adrenalina no ralo. E lá ficavam duas ou três fileiras a fechar a área e só aumentar a estatística, declamada por alguns como fato extraordinário. “Já são 700 minutos que o Corinthians não sofre gol!”, “O último gol sofrido pelo Corinthians foi no Paulistão, contra o São Paulo!” E voltou a levar, agora de Luis Fabiano. Pronto, lá se foi a proeza.

Na falta de combate, na ausência de lances bonitos, na carência de atrevimento, se lançam tais dados no ar como se fossem a confirmação de certezas científicas. E assim se tomam como justificáveis, depois, as declarações dos treinadores, sempre seguros de que fizeram o melhor, mas que “o time recuou porque o adversário assim o obrigou”.

Conversa. Prolifera a linhagem dos professores que seguem a filosofia do não perder e, se possível, ganhar por um gol. Se vier goleada, não têm culpa! Não é por acaso que se abusa da expressão “estávamos por uma bola”. Como por uma bola?! Tem de ser por várias bolas, por diversas oportunidades de gol.

O ferrolho é mal que se alastra, anestesia crítica e torcida e, de forma sorrateira, se instala como verdade. Para pequenos em duelos contra gigantes, dá pena, mas é até compreensível. Inadmissível em confrontos entre forças equivalentes. Acho lindo quando uma retranca faz água.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 12/5/2014.)

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