Rivaldo no São Paulo: que o encanto do craque não se quebre

Antero Greco

23 de janeiro de 2011 | 00h52

Já vi muito futebol na vida – e não são poucos os anos que já carrego na cacunda. Por isso, permito-me dizer, sem presunção, que tive o privilégio de assistir a um punhado e tanto de craques em ação (claro, e muito perna-de-pau também). Dentre os bons de bola, mas bons de verdade, coloco Rivaldo. Esse pernambucano que logo mais baterá nos 39 anos em diversas ocasiões me encheu os olhos – no Mogi, no Palmeiras, no La Coruña, no Barça, na seleção. Dá para classificá-lo como craque, sem vulgarizar o uso de uma palavra mágica.

Rivaldo a esta altura da vida poderia dar-se o luxo de curtir aposentadoria, com as glórias e, espero, com a grana que acumulou na carreira. No entanto, teima em manter-se na ativa. Tanto que tem chacoalhado os ossos nos treinamentos do Mogi, seu ponto de retorno e clube do qual é proprietário e presidente. Estava prontinho para entrar em campo pelo seu (e bota seu nisso) time e só não o havia feito ainda porque tem uma pendência com o Bunyodkor, do Uzbequistão, que o impede de inscrever-se na CBF.

À espera do sinal verde da Fifa, para selar a transferência de seus papéis para o Brasil, eis que Rivaldo aceita o desafio de vestir a camisa do São Paulo, a terceira de grandes paulistas paulistas (a primeira foi a do Corinthians). Um convite do amigo Rogério Ceni, uma semana atrás, desencadeou o início de conversações que se acertaram num vapt-vupt. E lá vem o astro de pernas arqueadas, cabelos raros e sorriso tímido disposto a tornar-se ídolo no Morumbi. Por ética e bom tom, deve licenciar-se do comando do Mogi, sobretudo porque a equipe está na mesma Divisão de seu novo empregador.

Em várias ocasiões, falei e escrevi a respeito do momento da aposentadoria de um astro. Minha postura é imutável: trata-se de decisão íntima, pessoal, que cabe apenas ao jogador. Cada boleiro deve ter o bom senso de saber quando chegou a hora de parar. E ela pode demorar por vários motivos. O apelo financeiro para alguns é forte, a necessidade de manter-se na ativa conta para o equilíbrio físico e psicológico de tantos, assim como pesam o interesse e as oportunidades do mercado. Com enormes buracos de talento nos nossos clubes, continua a haver espaço para veteranos com currículo de peso.

Caso de Rivaldo. Arte lhe sobra, transborda inteligência e experiência lhe sai pelo ‘ladrão’. Resta agora esperar que o fôlego não o traia e que possa aproveitar esse bis com maestria. Como os grandes músicos, que ele consiga dar inúmeras ‘canjas’ no São Paulo. Mas que pare, tão logo perceba que pode tornar-se caricatura de si próprio. Tomara que não lhe falte sabedoria e sensibilidade para detectar quando colocar a chuteira numa moldura. Para manter intacto o encanto que nos proporcionou.

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