Roberto Carlos: ocaso de mais um ídolo no Corinthians?

Antero Greco

11 de fevereiro de 2011 | 01h09

Roberto Carlos e diretoria do Corinthians terão nesta sexta-feira reunião que pode representar fim de parceria que começou em janeiro do ano passado. O lateral esquerdo não se sente confortável, após os incidentes ocorridos como consequência da eliminação do time na fase preliminar da Libertadores, e anda muito calado, o que contraria seu temperamento. A torcida pegou pesado com ele, assim como jogou duro com Ronaldo e com o presidente Andrés Sanchez, eleitos como vilões pela frustração. Por isso, se prevê que a ruptura amigável seja a saída para o impasse.

Se isso acontecer, será uma pena. Pelo conjunto da obra, Roberto Carlos não merecia interromper dessa forma a experiência num dos clubes mais populares do Brasil. A carreira teve regularidade formidável, e rara hoje em dia, sobretudo com os dez anos como titular do Real Madrid, em que pressão existe tanto quanto no Corinthians. Sempre o vi como jogador eficiente, com preparo físico impecável e com histórico de contusões que se pode contar numa mão só. Com quase 38 anos, até outro dia era elogiado pela desenvoltura de “garoto”.

Mas o Corinthians é sempre superlativo, exagerado, tanto na euforia como nas tragédias. Assim como incensa jogadores e os transforma em heróis, de uma hora para outra a torcida os malha como Judas em sábado de aleluia. E não tem conversa. Rivellino, Edilson, Tevez são exemplos de figurões que um dia sentiram o carinho e o ódio de seus seguidores alvinegros. O desfecho naqueles episódios foi sempre o mesmo e inalterado: a debandada do atleta “marcado”.

No caso do Roberto Carlos, ainda merece explicação detalhada essa história de perseguição pelas ruas… Se for verdade, o caminho é procurar a polícia. Não sei se o fez. Já se a pressão é desculpa para um desejo de saída, aí a história é outra. Como sempre foi de falar o que sente, seria melhor esclarecer tudo, para que não fiquem mal-entendidos nem pairem no ar conjeturas de que vai embora em busca de dinheiro.

De qualquer forma, relações que se desfazem me deixam triste – sejam aquelas de trabalho, familiares ou esportivas. Mesmo nestes tempos em que o conceito de fidelidade entre jogador e clube é tão tênue e maleável, há perda para ambos os lados – e perdas me provocam sensação de vazio. Roberto Carlos também sente mais uma vez, e nas páginas finais da carreira, como o futebol mói os astros. Quatro anos e meio atrás, a trajetória na seleção acabou no momento em que ajeitou o meião no lance do gol da França sobre o Brasil na Copa.

Era necessário um culpado pela queda – Roberto Carlos veio a calhar. Com o que não concordo. Incomoda-me a ansiedade com que todos (torcedores e imprensa) buscamos vilões para grandes derrotas. Parece que sem eles não há explicações que façam sentido. É doideira do esporte, eu sei, e muitas vezes as acusações morrem logo. Em outras, eternizam injustiças.

Há quem considere Roberto Carlos polêmico, mascarado. Polêmico às vezes, mascarado não. Nunca me passou essa imagem. Nos contatos que tive com ele, no Brasil e no Exterior, raramente o vi recusar-se a expor sua opinião (com a qual nem sempre concordei) e não me lembro de tê-lo visto destratar fãs. Se de fato ele sair do Corinthians, desejo-lhe boa sorte. E que algum time de expressão o acolha, como etapa final antes de pendurar chuteiras.

(Este texto foi atualizado às 12h25, com algumas correções e dois novos parágrafos.)

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