Rogério Ceni, o goleiro-linha que marca mais do que atacante

Antero Greco

13 de fevereiro de 2011 | 23h08

Toda vez que vejo Rogério Ceni pronto para bater uma falta ou cobrar um pênalti me lembro do goleiro-linha. A moçada talvez não saiba o significado dessa palavra composta, mas os mais velhos que me leem aqui vão se lembrar. O goleiro-linha era um personagem híbrido, criado no futebol de rua dos tempos em que a meninada comprava “morteiro de 100”, corria do “homem do saco” e tinha medo de “ir pro Juizado”.

Uma regra clássica daqueles jogos do século que fazíamos todos os dias determinava: “gol de goleiro não vale”. O que era muito justo, pois se a função do goleiro era defender, onde já se viu ter a pretensão também de marcar algum gol. Não se discutia a legitimidade dessa norma; era aceita e ponto.

Mas havia uma brecha. Quando era baixo o número de atletas disponíveis para a pelada de fim de tarde – aquele bate-bola rapidinho antes de a mãe chamar pra janta –, se permitia ao moleque que estava no gol dominar a bola com os pés e dar escapadelas para a linha. Se ele fizesse gol, valeria. Só nesse caso, e por se tratar de situação de emergência.

Pois Rogério Ceni pra mim resgata o peso simbólico do goleiro-linha, com a vantagem de que é bom nas duas funções, o que nem sempre acontecia no futebol de rua. Não é por acaso que já fez mais gols do que muito atacante por aí. Neste domingo, colocou o 98.º no seu balaio, ao anotar o segundo na vitória por 3 a 2 do São Paulo sobre a Lusa, no Canindé.

E marcou no estilo de sempre, aquele que assusta seus colegas de função: aos 39 minutos do primeiro tempo, já com 1 a 0 (gol de Fernandinho), o juiz Flávio Guerra apita falta perto da grande área, mais pelo lado esquerdo do ataque. Rogério saiu lá de trás, para delírio da torcida (tricolor, claro), que já antevia coisa boa, e veio ajeitar a bola com a intimidade dos que sabem tratá-la bem. Pra quê?!?! O chute saiu certeiro, indefensável para Weverton. Teve fã da Lusa que só não aplaudiu por vergonha. Mas que teve vontade, teve.

Rogério está pertinho do centésimo gol. Na conta da Fifa, porém, tem 96, porque dois foram marcados em jogos não oficiais. Sinceramente, esse é um detalhe que pouco importa. Exceto nos joguinhos de rua, estou pra ver um goleiro que já marcou tanto assim. E o mais interessante é que, aos 38 anos, não dá indícios de que vá parar tão já. Ainda bem.

Erros e acertos. Bom para o São Paulo foi o resultado. Com a  vitória encosta nos líderes e ganha mais fôlego para o início da disputa da Copa do Brasil. O resultado, porém, não esconde que ainda há falhas. Carpeggiani recorreu ao esquema com três zagueiros – o estreante Rhodolfo, Alex Silva e Miranda – na tentativa de tornar a defesa mais segura. No entanto, não foi bem assim. A Lusa criou várias chances, fez dois gols com Heverton (no segundo tempo) e mostrou que esse setor tricolor é vulnerável.

Rivaldo voltou ao time e foi discreto. Saiu na metade do segundo tempo, quando o placar estava 2 a 1 e a Lusa pressionava. Com Marlos em seu lugar, o São Paulo recuperou o domínio e fez o terceiro (Rhodolfo). Dagoberto já com as pazes feitas com o treinador foi um dos destaques do jogo. Fernandinho também teve boa atuação.

Lamentável mais uma vez a atitude de alguns torcedores. Heverton, mesmo com os gols, não driblou a fúria de dois supostos conselheiros da Lusa, que invadiram a área reservada aos jogadores, no estacionamento do Canindé, e agrediram o atacante.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.