Rogério é mil*

Antero Greco

07 de setembro de 2011 | 11h55

O futebol anda tão volúvel que hoje em dia vira notícia quando jogador completa 100 partidas pelo mesmo time! A marca, antes tão banal, recebe tratamento vip, de efeméride, embora possa ser alcançada em um ano e meio, sem forçar a barra e se não houver contusões. E se o cara for razoavelmente bom de bola. Coisinha de nada é motivo de festa, com direito a camisa 100. Então, como se deve reagir, se o cidadão completar 10 vezes essa soma? No mínimo, com muito rojão, confete, fanfarra, chope, tubaína, salgadinho, medalhas, placa, discurso, bandeja de prata, o diabo a quatro! E uma reverência e salva de palmas.

Pois na tarde de hoje, no 189.º aniversário da Independência do Brasil, o inoxidável Rogério Ceni vestirá pela milésima vez a camisa do São Paulo! Você já parou para pensar o que significa isso? Não é bolinho, como se dizia no Bom Retiro ao se ressaltar a excelência de uma proeza. É preciso ter regularidade acima da média e competência.

Qualidades que Rogério tem de sobra, e não se deve creditar aos deuses do futebol ou a outras bobagens esse momento único, pelo menos na história tricolor. Já vi muito atleta dedicado e longevo estabelecer limites difíceis de serem igualados. Mas poucos como ele. Raros, porque demanda tempo (só de Morumbi ele passa de duas décadas), paciência, resistência (que me lembre só sofreu uma contusão grave), autocontrole e uma tremenda autoestima.

Vestir por uma vez que seja a camisa 1 de instituição com o peso do São Paulo não é pra qualquer cristão. Usá-la em 100o oportunidades, só se tiver méritos. E Rogério tem, pra dar, vender, emprestar e ensinar. É para comemorar sem economia. São-paulino que se preze, tem de ir ao Morumbi e aplaudir de pé o maior ídolo do clube. Ele merece.

Sei que há muita gente que torce o nariz e considera Rogério Ceni esnobe, presunçoso, canastrão. Se você apertar, faltarão argumentos para desafetos explicarem a rejeição. Que eu, em minha psicologia de botequim, credito a dor de cotovelo, a implicância e a certo preconceito. Parece arrogante porque sabe usar plurais e construir frases com verbo, sujeito e predicado, e além disso foge ao padrão do “Nóis vai, nóis vorta”, “Tudo fazeremos para conquistar os três pontos”. Engraçado, né? A gente acha que boleiro tem de ser xucro e anarfa.

Não o considero um santinho. Rogério Ceni, como todo grande da posição, tem suas manias (essa de usar 01, por exemplo), tem ego inflado (goleiro sem confiança sucumbe ao primeiro frango) e nem sempre se mostra simpático. (E você, que me lê, diga lá: nunca foi intragável em algumas situações? Ora…) A gente pode não concordar com o que ele diz, mas tem opinião e não teme expô-la. Peixe ensaboado temos demais.

Na falta de pecados mortais, apela-se para falhas. “Ah, é um frangueiro”, ouve-se com frequência. Rogério já engoliu perus antológicos, assim como todos os gigantes das traves. E já fez milagres reservados são aos muito bons. De quebra, faz gols, passou de 100. “Ah, só porque ele cobra falta e pênaltis, vão dizer que é bom.” Sim, senhor, por ser ótimo nas bolas paradas, merece elogios.

A gente desce tanto a ripa ao falar de esporte, sobretudo o futebol – que dá motivos -, que fica até chato. Por isso, me alegro quando surge um tema positivo, pra cima. Como ando empenhado em mandar o baixo astral pra lá de onde Judas perdeu as botas, me junto aos que de fato curtem futebol e tiro o chapéu para Rogério Ceni.

Meus amigos, são 1000 jogos!

*(Parte principal da minha coluna no Estado de hoje, dia 7/9/2011)

 

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