Ronaldinho chega em um dia de dor

Antero Greco

12 de janeiro de 2011 | 20h45

O Rio de Janeiro vive momento de intensa tristeza  e enorme contradição. Por um lado, há um luto que já nem é local, mas nacional, com a morte de mais de 200 pessoas na região serrana, com deslizamentos e com centenas de desabrigados. Dor e destruição por toda parte. Em contrapartida, no meio da tarde o Flamengo organizou festa ruidosa para apresentar Ronaldinho Gaúcho, a pérola mais cara de seu elenco. Calcula-se que 20 mil rubro-negros foram receber o craque, que chega com a missão de resgatar sua trajetória pessoal e de honrar contrato milionário e complexo.

A recepção ao astro, disputado com unhas e dentes com concorrentes de peso como Grêmio e Palmeiras, estava programada desde a noite de segunda-feira, quando se fechou a transação. Portanto, antes da tragédia, ocorrida na madrugada de terça para esta quarta-feira. Pode alegar-se que não haveria mais tempo para adiamento. No entanto, desde as primeiras horas da manhã os meios de comunicação noticiaram amplamente o que ocorria em Teresópolis e Nova Friburgo, cidades mais atingidas pelos temporais. Não dá para falar em falta de informação.

O futebol é divertimento, ok, e hoje em dia acima de tudo negócio. Ou seja, uma roda-viva que não pode parar. Mas será que não cabe uma pausa de vez em quando? Teria encarado como gesto de delicadeza e sensibilidade se as boas-vindas a Ronaldinho fossem transferidas para depois de amanhã, ou sábado. Quem sabe para o domingo? A alteração de programa não arrefeceria a empolgação do torcedor, não atrapalharia os negócios em andamento com esse investimento pesado. E seria uma demonstração de civismo dada pelo futebol.

O Flamengo, clube tão popular e querido, mostraria que estava perto das vítimas, a ponto de declinar de uma festa em respeito à dor. Se a iniciativa partisse de Ronaldinho Gaúcho, melhor ainda, pois teria a força de aplacar o desgaste sofrido com o leilão em torno de seu passe. Um superstar como ele, cercado por gente que sabe negociar cifras, parece carecer de consultores com sensibilidade mais apurada.

Não considero uma afronta a manifestação de carinho do torcedor por um atleta que chega, mas lamento que o futebol tenha desperdiçado a chance de chamar a atenção das pessoas para a solidariedade. E nada como o futebol para aglutinar em torno de ideias, de fatos. A presidente Patricia Amorim colocou o clube à disposição, como ponto de arrecadação de donativos – e isso é bacana. Mas hoje se perdeu a chance de marcar um lindo gol de enternecimento.

(Interrompi as férias e gostaria que a primeira crônica deste blog, em 2011, tivesse outro tom. Mas, se driblasse o tema, estaria a agir da mesma forma como os personagens acima citados. Ainda assim, desejo que todos tenhamos um ano com muitos momentos felizes. E que jamais percamos sensibilidade e esperança.)

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