Ricardo Oliveira, Wallace e o fair-play

Antero Greco

07 de setembro de 2015 | 16h48

Esperteza, picardia, artimanha fazem parte do futebol. A popular malandragem deve ter surgido com o primeiro chute na bola. No Brasil, ela foi aperfeiçoada. Não vou citar casos de burlas de jogadores durante um jogo porque encheria uma enciclopédia.

Dois casos, porém, me chamaram a atenção nestes dias. Não são fora do comum, muito menos inéditos, tampouco dos mais graves que já vi em gramados. Ao contrário, são até corriqueiros, daqueles que, em situação normal, entram pro folclore e servem para esquentar as conversas de botequim ou no cafezinho da firma, entre uma cornetada e outra no chefe.

Refiro-me ao pênalti cavado por Ricardo Oliveira durante a semana, na vitória do Santos sobre a Chapecoense (3 a 1), na Vila Belmiro. E também ao lance do primeiro gol do Fla no clássico com o Fluminense (3 a 1), na tarde do domingo, no Maracanã.

As mutretas foram as seguintes. 1 – Ricardo Oliveira simulou falta do zagueiro, caiu na área e o árbitro Bruno de Araújo apontou a marca da cal. Por um desses acasos, se fez justiça porque Ricardo errou a cobrança, defendida pelo goleiro Danilo. O artilheiro fez dois gols naquele jogo. 2 – No Fla-Flu, Wallace socou a bola, ao subir para cabeceá-la, após escanteio, e assim fez o “passe” para Emerson, que mandou para as redes. O juiz Ricardo Ribeiro confirmou.

As atitudes de Ricardo e Wallace foram criminosas, para usar termo forte e batido? Não, da mesma forma como não foram lícitas, além de terem prejudicado adversários e terem induzido árbitros a erros. Mas o desfecho dos lances poderia ser diferente e se ajustaria à perfeição aos dias atuais. Par várias razões.

O primeiro desses motivos: Ricardo Oliveira e Wallace são experientes e têm preparo intelectual acima da média dos colegas de profissão. Ricardo é pastor (ou está em vias de se tornar); portanto, um homem de fé. de bons princípios morais. Wallace preocupa-se com problemas sociais, é ligado em leitura. Ambos se expressam muito bem e exercem liderança em seus respectivos grupos; não por acaso são capitães.

Como ultimamente se fala tanto em complô, em “roubalheira” no Brasileiro, em armações e outras coisas ruins, Ricardo e Wallace ganhariam pontos de honra se tivessem admitido as farsas. Um simples “Não foi nada, professor” teria valor simbólico e tanto. Certamente,  ajudariam a  aliviar o clima pesado que se formou em torno do campeonato e de seus atores.

Mostrariam, também, que nem todos se calam quando irregularidades os beneficiam. Não se trata de decisão difícil e seria bela contribuição para o fair-play. A torcida chiaria? Talvez. Porém , entenderia a mensagem, refletiria a respeito. Quem sabe um dia?

PS. O Flamengo teve gesto bacana ao emitir nota oficial em que reconhece o benefício que teve no jogo. Assim que se faz.

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