Saco sem fundo*

Antero Greco

22 de janeiro de 2014 | 12h51

O futebol é fonte inesgotável de surpresas, muitas delas ruins. Deu vontade de colocar no título da crônica que o esporte mais amado do mundo é uma Caixa de Pandora. Mas isso soaria meio pedante, pois remeteria à mitologia grega e seus símbolos, coisa complicada de se entender hoje em dia. Melhor recorrer ao popular: trata-se de saco sem fundo. Ou, como diriam na lata as comadres do Bom Retiro velho de guerra, uma pouca vergonha.

A folhinha de 2014 ainda nem completou o primeiro mês e já se colecionam exemplos cabeludos para deixar a gente com pé atrás sobre os bastidores do jogo de bola. Para consumo doméstico, há o caso do cai não cai no insepulto Brasileiro de 2013.

As liminares continuam a sair e a serem cassadas na Justiça Comum, tanto no Rio como em São Paulo. E com conflitos entre os pareceres dos juízes. Numa hora, a Lusa se salva e afunda o Flu. Na outra, o Fla vai pro brejo e a Lusa sai ilesa. Em seguida, os dois entram pelo cano e o Flu fica quietinho na Série A para 2014. Depois, vira tudo novamente. E sem previsão de final.

Para complicar o enredo, aparece um e-mail em que a CBF se dispõe a adiantar receitas de R$ 4 milhões para a Lusa, desde que ela se comprometa a não levar o imbróglio adiante. A história foi revelada pela ESPN e ninguém desmentiu. No máximo, se admitiu a negociação como algo normal, comum e corriqueiro entre entidade e clubes.

Pode até ser. Não é de agora que CBF e Federações repassam dinheiro com antecedência para agremiações em dificuldades financeiras. Não seria de estranhar, portanto, essa oferta. Mas, diante das circunstâncias, a generosidade oficial soa descabida.

Diante do barulho todo, a administração Marin não deveria embarcar nessa. Ou negava o dinheiro ou fazia contrato usual, sem cláusulas de para desistir disso ou daquilo. Deu espaço para a Lusa usar o documento como prova de que há perspectiva de sucesso na empreitada. Há quem interprete o episódio como admissão de culpa da CBF. E isso a Justiça é quem decidirá.

Arrepios pra valer provoca a notícia de que o Estádio Mané Garrincha, ode ao desperdício e à opulência, tem para consumir mais R$ 300 milhões , que se juntam ao 1,4 bilhão de dinheiro público enterrado lá até agora. Só essa quantidade de recursos faria corar um frade de pedra e despertaria indignação em quem paga impostos a torto e a direito. Só para comparar, sem comentários adicionais: o funcional estádio da Juventus, em Turim, para 40 mil pessoas, custou cinco vezes menos e foi construído em tempo recorde.

Então, o elefante de concreto e aço do Distrito Federal ficará como a joia da Copa-14? Aparentemente. Porque, na prática, há furos. Literalmente. Os meios de comunicação mostraram que, sete meses após a inauguração, há goteiras na praça desportiva. Ah, mas não ficará assim: serão cobradas responsabilidades, garantem autoridades. O edifício sai por um preço salgado e está com defeito?! Nem chove tanto e com frequência naquelas bandas.

Cara de pau internacional veio de Barcelona, por meio de Sandro Rosell, o poderoso patrão de Neymar. El Mundo, editado na Espanha, trouxe novos detalhes a respeito da transferência do ex-astro do Santos e garante que o investimento não custou os 57,1 milhões alegados, mas acima de 95 mi. O Estado havia abordado o tema meses atrás.

A diferença é de 38 milhões, ou em torno de R$ 120 milhões! Não é troco de bala ou cafezinho. É bolada de Mega Sena. Daí, em entrevista coletiva, Rosell afirma, sem cerimônia, que não faltou transparência de sua parte e que eventuais somas não abertas ao público se devem a termos de confidencialidade pedidos “pelos outros”. Sem se abalar, adiantou que mostrará tudo diante de um juiz. Ou seja, os sócios do Barça que fiquem a chupar dedos. E esse clube é modelo de gestão esportiva…

Quanto money no futebol. Há interesses demais, brigas por poder. Poucos santos e muitos bobos – categoria na qual incluo imprensa e torcida.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, 22/1/2014.)

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