Santos x Dorival Júnior, a ruptura mal explicada

Antero Greco

22 de setembro de 2010 | 01h00

No comentário que publiquei na tarde de ontem (“Dorival x Neymar: uma ferida ainda aberta”), na última frase escrevi que o momento no Santos requeria muita sensibilidade e espírito desarmado, para que uma trombada de trabalho não virasse motivo de ruptura, crise, inimizade e demissões. Pois virou, e com final previsível: a saída do treinador. Mas a história não está contada direito. Há pontos soltos.

Dorival saiu porque a diretoria santista se sentiu traída pelo descumprimento de suposto acordo de cúpula. Os cartolas atenderam exigência do técnico, que pediu afastamento do atacante, depois do bate-boca durante a partida com o Atlético-GO, na semana passada, na Vila Belmiro. Neymar não jogou contra o Guarani, no domingo, e essa teria sido a forma encontrada pelo clube para demonstrar em público respeito à hierarquia. A multa foi mais para inglês ver, já que pouco pesará no bolso do rapaz.

Em contrapartida, os dirigentes queriam a presença do jovem astro no clássico desta quarta-feira diante do Corinthians. Consideravam que o recado havia sido passado para Neymar e que era chegado o momento do perdão. Na segunda-feira, tudo parecia resolvido, tanto que se dava como certo o retorno. Caberia, no entanto, a Dorival fazer o anúncio, para não caracterizar interferência superior no episódio.

O treinador não seguiu o script e ratificou a punição. Os dirigentes subiram nas tamancas, houve a convocação de reunião de emergência e o desfecho foi a demissão. Mas, se de fato existiu esse acerto prévio de reconciliação, o que levou Dorival a voltar atrás? Se ficou incomodado com a situação, por que não falou com seus patrões antes de tornar oficial sua decisão? Onde, e por quê, houve a falha de comunicação? A quem interessava a continuação da desavença?

E mais. O Santos sabia do valor da multa rescisória (fala-se em R$ 2 milhões) e mesmo assim optou pela dispensa de Dorival, em vez de tentar saída moderadora, que seria a de aceitar a extensão da “geladeira” de Neymar e retomar a rotina a partir do final de semana. Valeria a pena, portanto, correr o risco de desembolsar essa quantia?

Dorival também se mostrou irredutível e aparentemente não se incomodou com a queda. Será que achou mesmo que sua autoridade ficaria arranhada, se encerrasse o incidente e colocasse Neymar num jogo importante para seu time? Onde foi parar a alegria de Dorival e seus jogadores, sintonia que tornou o Santos o time diferente no primeiro semestre? Por que a sisudez, o clima pesado, de uma hora para outra? 

Houve barulho demais nessa história, que poderia limitar-se à bronca, à multa e a um ou dois jogos de molho. De qualquer modo, se o Santos acreditou no efeito pedagógico da repreensão e depois voltou atrás, a ponto de romper com o técnico, como vai lidar com Neymar daqui pra frente? Afinal, passou para ele a informação de que é mais poderoso do que um treinador e que, supostamente, tem carta branca para comportar-se da forma como achar melhor. É a alternativa mais eficiente? Tomara que Neymar dê a resposta em campo, da forma como o torcedor gosta, com futebol. Nada mais.

Fala-se que Dorival Júnior não ficará muito tempo desempregado, como ocorreu ao sair do Vasco, no fim do ano – episódio ainda hoje nebuloso, pois se deu logo após reconduzir o time para a Série A nacional. Há quem aposte que seu novo endereço será o Morumbi. Acredito em tudo, pois é muito obscuro o mundo do futebol.

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