Sarna pra se coçar*

Antero Greco

14 de agosto de 2015 | 13h13

Sabe o sujeito que tenta, mas não consegue safar-se de confusões? Procura fazer as coisas direito até que, num momento, pisa na bola? Pois se pudesse ser personificado em uma entidade, seria a CBF. O Brasileiro deste ano vai bem, com maior interesse de público e interessante disputa pelo topo. Há, mesmo, bons jogos, acima da média de Séries A anteriores.

Daí, no tal do sorteio, aparece a indicação de Luís Flávio Oliveira para apitar o jogo que Corinthians e Sport fizeram anteontem em Itaquera. Nada contra o rapaz, absolutamente; leviandade tola suspeitar da lisura dele. Porém, desde o primeiro instante se falou na inconveniência, para não dizer sandice e estranheza, de escalar um juiz que atua na mesma federação (no caso a Paulista) que um dos times envolvidos na disputa. Pior: num duelo pela parte de cima da classificação, luta direta pela liderança.

Dito e feito! Teve celeuma, e em lance que decidiu o jogo. Para tornar mais delicado, ainda, em cima da hora, e depois de reação espetacular do Sport. O Corinthians vencia por 3 a 1, cedeu empate até que, numa jogada de linha de fundo, Guilherme Arana tentou o cruzamento e a bola bateu no braço de Rithely, que tentava o corte de carrinho. Luís Flávio apontou a marca da cal, Jadson bateu e fez o gol da vitória.

Os pernambucanos chiaram, com razão, pois a interpretação é no mínimo polêmica. Para complicar, em jogada similar, no clássico entre Cruzeiro e Flamengo, em BH, pela 5.ª rodada, o mesmo apitador viu lance normal e ignorou apelo de pênalti pros cariocas.
Nem considero equivocada a atitude de Luís Flávio; a tendência dos árbitros tem sido justamente a de marcar pênalti, por recomendação pra lá de discutível da Fifa.

A questão é a falta de coerência do juiz e, acima de tudo isso, a confusão grátis arranjada pela Comissão Nacional de Arbitragem, braço da CBF. Luís Flávio poderia não ter dado nada, e levantaria lamentação por parte dos corintianos. Em resumo: havia temor de episódio controvertido – e ele apareceu. E era sarna evitável.

Meio por cento. Por falar em árbitros: curiosa a manifestação reivindicatória antes dos jogos da rodada de meio de semana. Em todos os estádios, o apito inicial veio após os quartetos se alinharem no centro do campo e levantarem a plaquinha luminosa com os números 0 e 5 para protestar contra o veto à proposta de que 0,5% do valor arrecadado com as transmissões pela televisão fosse para a entidade da categoria, para posterior redistribuição. A alegação é a de que a soma pagaria o direito de imagem do pessoal e constava da redação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Futebol levada para aprovação da presidente Dilma Rousseff.

O gesto seria normal, como expressão livre de anseios de trabalhadores (embora questionável o direito a tal quantia). Até aí, tudo bem. Mas por que foi tolerada a conduta dos árbitros, se nas “arenas” são proibidas a torcedores e jogadores manifestações políticas ou de qualquer natureza? A mando de suas senhorias, faixas foram retiradas pela polícia das arquibancadas por fazerem alusão à CBF e atletas foram coagidos a não exibirem apoio ao Bom Senso FC.

E agora? Serão punidos os juízes? Ou prevalecerá o peculiar conceito que temos por aqui de liberdade de expressão: é legítima a minha reclamação; já a sua é abusiva?

Filme velho. O torcedor do Palmeiras tem pavor de assistir nos gramados a fita mais repetida do que Rei dos Reis na Sexta-feira da Paixão: o time ameaça embalar, empolga, desencadeia corrente positiva até que… começa a desandar. O roteiro apareceu nas últimas rodadas, com três derrotas consecutivas, a mais recente delas para o Coritiba. Oscilações em torneios longos ocorrem, e não seria diferente com os palestrinos. Mas perder para o lanterna é coisa de que pode virar fogo de palha de uma hora para outra. O teste de resistência virá no domingo pela manhã contra o Fla em casa.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso de hoje, sexta-feira, 14/8/2015.)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: