Seedorf, a estrela que passou pelo Botafogo

Antero Greco

14 de janeiro de 2014 | 14h57

Clarence Seedorf é desses sujeitos que fazem bem ao futebol. Divertem-se na profissão, sem deixar de levá-la a séria. Combinação ideal para ter longevidade na carreira. Eis um dos segredos que o fizeram manter-se em atividade à beira dos 38 anos. Só deixou os gramados, oficialmente nesta quarta-feira, para assumir o desafio de dirigir o Milan. Não resistiu à convocação do “Cavaliere” Silvio Berlusconi, dono do tradicional time italiano.

Nos mais de 20 anos em que desfilou arte, talento, criatividade, simpatia – e alguns momentos de ira, por que não? –, Seedorf firmou imagem forte, de liderança. Não passou despercebido em nenhuma das grandes equipes que o contrataram (Ajax, Real, Inter, Milan, Botafogo) e ainda teve uma experiência fugaz na Sampdoria, de Gênova. Sem contar a seleção holandesa, em que teve presença constante por uma década e meia.

O estilo de Seedorf sempre me agradou, e a admiração cresceu no ano e meio em que vestiu a camisa do Botafogo. Quando desembarcou por aqui, na metade de 2012, houve quem o visse como um boleiro em fim de carreira que vem esbaldar-se nas praias do Rio. Afinal, ele é casado com brasileiro e tem casa por lá. Natural, portanto, que unisse o útil ao agradável.

Pois desde o primeiro momento, Seedorf mostrou que não veio a passeio, mas para jogar futebol. E o fez com elegância e profissionalismo. Encaixou-se à perfeição no Botafogo e rapidamente se tornou referência, voz de comando e ídolo. Seedorf se revelou um craque à altura do clube que teve Garrincha, Nilton Santos, Amarildo, Jairzinho, Gerson, Manga, Carlos Alberto, Zagallo, Heleno de Freitas e dezenas de outros astros. A camisa não lhe pesou.

Seedorf orientou companheiros em campo e fora, ao protestar contra atrasos em pagamentos e outros benefícios. Mas o fez de maneira correta, sem alarde, sem confronto radical. Foi um dos responsáveis pela diminuição no tempo de concentração. Nem por isso, o elenco do Botafogo deixou de desempenhar o melhor possível, dentro das limitações.

O holandês também enfrentou descontentamento da torcida, sobretudo no período em que ele e Bota andaram em baixa. Sentiu o golpe, a ponto de devolver com palavras firmes as vaias. Pelo tipo de vida que leva, daria para continuar a bater bola por mais uma temporada. Mas o tempo chega para todos, implacável. Melhor ter saído agora, com aquela sensação de que poderia continuar, do que ver-se obrigado a pendurar as chuteiras por não ter mais fôlego e pernas para acompanhar a rapaziada.

Sedorf prepara voo para aventuras novas, num time que conhece bem demais. Se conseguirá passar para os jogadores, agora do banco, tudo o que acumulou de conhecimento na carreira, vai firmar-se como grande treinador. Como jogador não há o que contestar.

Boa sorte para ele. Fica um vazio no Botafogo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: