Seleção é para bonzinhos ou para bons de bola?

Antero Greco

23 de setembro de 2010 | 12h41

Mano Menezes comprou uma briga que não era sua, ao tirar o nome de Neymar da lista de convocados para treinos e/ou amistosos no começo de outubro. O técnico da seleção é mais um que resolveu dar lição de moral ao jovem atacante do Santos, ao passar-lhe o recado de que não quer jogadores polêmicos em seu grupo. Não basta ser bom de bola, para vestir a camisa amarelinha; é preciso também ser bonzinho. O time que foi à África do Sul estava repleto de rapazes bem comportados…

Mesmo sem intenção, Mano teve reação corporativista. Assumiu, por tabela, as dores de Dorival Júnior, seu colega de profissão e que perdeu o cargo pela trombada com o candidato a astro. Esse sentimento de classe ficou claro ao dizer que o que traz um atleta para a seleção “é o que produz dentro de campo”.

Se esse for o critério principal, não haveria razão para Neymar ficar fora da seleção. O que ele tem jogado – mesmo na derrota de seu time no clássico de ontem – é suficiente para garantir-lhe presença no grupo, senão no time titular. Mano deu voltas aqui e ali, em suas respostas, na tentativa de esconder o óbvio: puniu Neymar por uma confusão que não foi sua.

Mano deve ter ficado com medo de ser visto como frágil, se convocasse Neymar e fingisse que nada aconteceu no Santos. Va lá, é uma interpretação, um modo de agir. As pessoas têm sua maneira de interpretar a vida e cada um age de acordo com suas convicções e formação. No futebol, em geral, são conservadoras.

O afastamento não seria a única maneira de educar ou repreender um profissional com potencial e controvertido. Mano poderia agir como pacificador, se chamasse o rapaz e tivesse conversa firme com ele. Na base do “Nem tente fazer algo assim comigo.” Inteligente, Neymar entenderia o recado.

Mano provavelmente ganharia o respeito de um jogador que pode contribuir muito para a seleção e, por tabela, encerraria a polêmica. Só fez reacendê-la.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.