Seleção em campo. E olhos voltados para Neymar*

Antero Greco

29 de maio de 2014 | 09h25

O puxadinho erguido atrás do campo principal da Granja Comary virou, na manhã de ontem, colmeia de objetivas de vários calibres, câmeras de tevê e jornalistas encapotados. Alguns até arriscaram a perna numa fenda na arquibancada provisória. A turma da imprensa madrugou, encarou frio e chuvinha de molhar a alma para registrar o primeiro dia de atividades da seleção no gramado.

Clima e paisagem mais para Alpes suíços do que para país tropical, terra de sol, samba, carnaval, futebol, mulatas. E de protestos. Pareço gringo, entupido de estereótipos, até sobre os Alpes suíços, que só conheço por fotos.

Pois bem, circo montado e ensopado para seguir os 23 moços candidatos a protagonistas do Mundial. Assim que o bloco saiu da sala de musculação e veio para a exposição pública, não deu outra: olhos e lentes se voltaram para Neymar. Reação instintiva, natural, lógica. Disparar incessante de cliques, busca de closes e burburinho sobre o jovem astro da Barça. Não faltaram comentários a respeito do penteado – mais comportado, parece, mas para mim extravagância de jovem, com fios engomados pra cima, aparados de um lado, risquinho de barba pra baixo. Essas bossas.

Neymar ficou a correr pra cá e pra lá, deu e tomou dribles num bate-bola com intenções mais relaxantes do que técnicas. Passaria batido num treino normal. Comportou-se como mais um dentre os convocados por Felipão para defenderem as honras da casa na Copa. Mas não é. Queira ou não, por méritos próprios e por penúria de ídolos nacionais, virou o ponto de referência da seleção, o grande nome, o craque, o porta-estandarte, o baluarte na missão que começa dia 12 contra os croatas.

Ando cismado com tarefa de tamanha envergadura despejada sobre ombros quase juvenis e pernas finas – se bem que engordou 3 kg na temporada europeia, volume saudado pela comissão técnica como indício de evolução física. Vá lá que os boleiros de ponta hoje amadurecem com rapidez, com risco de queimar etapas, ao se tornarem celebridades internacionais da noite para o dia.

Pode ser que, daqui a seis semanas, Neymar entre na lista dos heróis dos Mundiais e carregue pra casa taça, chuteira de ouro, medalha. Tomara. Mesmo assim, prematuro concentrar anseio de 200 milhões – incluo a turma do “Não vai ter Copa” – num fedelho de 22 anos.

Não sei se ele tem consciência da responsabilidade e consequentemente, das cobranças que virão. Melhor que flane nas nuvens, só a curtir fama, comerciais, assédio. Assim, fica solto e leve. Neymar tem o perfil de quem perderá a graça quando virar sério, ficará chato ao se transformar em gente grande.

Até hoje só um predestinado roubou a cena mal saído das fraldas. Pelé, claro, quem mais? Com menos de 18 anos, regressava aclamado da Suécia. E só voltou a brilhar com força no tri, em 1970. Os demais reis de Copas despontaram no meio da carreira. Neymar romperá essa tradição? Torço, com ressalvas

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, 29/5/2014.)

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