Seleção: excelente momento para a derrota

Antero Greco

17 de novembro de 2010 | 17h45

Seria fácil dar uma cornetada em Mano Menezes e na seleção. Afinal, perder sempre é chato, sobretudo para a Argentina e no finalzinho da partida. Mas não considero necessário descer o malho sem piedade. O escorregão foi didático, veio num momento oportuno e o técnico mostrará sensibilidade e inteligência se tirar boas conclusões do que representou a aventura desta quarta-feira no Catar.

O Brasil não fez uma exibição de encantar – longe disso. Também não deu um vexame daqueles de envergonhar sua história. A apresentação foi árida como a região em que se disputou o clássico e com tonalidades distintas: boa no primeiro tempo, insossa no segundo. A Argentina também esteve distante do recital anterior, na goleada sobre a Espanha campeã do mundo. O empate seria o mais ajustado para um duelo que teve raros lances de emoção e ritmo que chegou a arrancar bocejos.

A diferença ficou para Douglas e Messi. O primeiro perdeu bola boba e não teve poder de recuperação. O segundo mostrou por que é um dos melhores do mundo: foi ágil na condução do contra-ataque e na arrancada que desmontou a zaga brasileira. Uma desatenção, um olhar de gênio e partida equilibrada que se resolve em cima da hora.

Derrota à parte, Mano tem material de sobra para analisar o que significou o teste mais difícil desde que substituiu Dunga. A defesa se comportou bem – Thiago Silva e David Luiz deram conta dos atacantes argentinos, até a jogada fatal. Daniel Alves e André Santos não comprometeram na marcação, mas não acrescentaram quando desceram ao ataque. Cruzamentos e passes rotineiros.

O meio-campo careceu de ousadia. Ramires, Lucas, Elias não engrossaram, da mesma forma como não encheram os olhos. Para ficar num lugar-comum, tiveram performance burocrática. Jucilei jogou pouco, mas teve tempo de suar a camisa. Não sei por que Mano reluta em chamar Hernanes e ver como se sai no setor.

Já os três da frente, digamos assim, desapontaram. Ronaldinho Gaúcho retornou ao grupo da “amarelinha” com o pique que o caracteriza há algum tempo: toques bonitos, um ou outro drible de efeito, alguns passes precisos e a impressão de que vai arrebentar. Depois, murcha. Desse jeito, não chega à Copa de 2014. Douglas entrou, não acrescentou nada e ainda foi infeliz na jogada que definiu o placar.

Robinho é um grande mistério: seu futebol é apenas brilhareco – e, ainda assim, não só tem lugar cativo desde os tempos de Parreira, como também se tornou capitão. E ficou até o fim, sem ter feito nada de significativo. Neymar tentou impor-se, porém se enredou na vigilância da zaga argentina e afundou-se na solidão na frente.

Não vejo motivo para drama nem para perder o sono. A seleção tem muito caminho pela frente. E sempre é melhor perder da Argentina do que iludir-se com vitórias sobre EUA, Irã ou Ucrânia. O jogo com os hermanos foi mais fértil. A bola está com Mano.

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