Selinhos e pancadas*

Antero Greco

21 de agosto de 2013 | 12h34

Futilidades e baixarias sempre chamam a atenção, pois aguçam curiosidade, inveja, cobiça e adjacências, além de exigirem pouco uso do raciocínio. A atração pela fofoca é proporcional à fama dos personagens envolvidos. Ela distrai, afirmam magos da audiência, e se assimila com facilidade. Temas espinhosos tendem a ser varridos pra baixo do tapete, já que incomodam.

Prova disso? Está na mão. Desde a noite de domingo, o papo de futebol gira em torno do selinho que Emerson trocou com um amigo dele, na folga após o jogo com o Coritiba. Discussão a perder de vista, com gente a favor, contra ou tico-tico no fubá. Festival de conversa fiada, com toques de preconceitos, discursos inflamados sobre direitos destes ou daqueles, fora catedráticas opiniões de especialistas em psicologia, sociologia, história, cultura, gastronomia, astrologia…

Não faltou até protesto de representantes de uma organizada do Corinthians, que levou faixa no centro de treinamentos para lembrar que ali “é lugar de homem”, tá pensando o quê, mano?! Emerson retrucou, com o argumento de que pôs a foto em rede social para provar o quanto há de atraso e falsidade nas relações humanas. Assim, passou batido o chilique ao ser substituído no domingo, com agravante de olhar feio para o técnico e atirar ao chão a garrafinha d’água, pobrezinha. Fica no banco hoje contra o Luverdense.

No mesmo dia, imagens de televisão flagraram grupo de integrantes de uma facção do São Paulo a espancar um homem, nas imediações do Estádio Mané Garrincha, antes do clássico com o Flamengo. Pertinho deles, alguns policiais olhavam para o horizonte, absortos, contemplativo. Demorou até notarem que um corpo jazia, e daí se promovesse o socorro e se partisse em busca dos autores da covardia.

Comoção coletiva? Reações iradas nos tuítes e fêices? Comentários amplos e minuciosos nas mesas-redondas dominicais? Que nada! Um registro aqui, uma reportagem ali, uma crítica acolá. Tratamento dispensado a fatos corriqueiros, tão banais e integrados à vida como o nascer e o pôr do sol ou o ato de respirar, dormir, acordar, andar.

Mas o beijinho do Emerson… ah, quanto tutano e libido consumiu dos mais diversos segmentos! E continua a render ibope. Ok, a vida é feita também de bobagens, de assuntos leves, de futricas inócuas. Só que desanima ver como as pessoas tomam posição enérgica em questão frívola como essa, na mesma proporção em que digerem, indiferentes, notícias de espancamento de menores infratores internados ou de mendigos queimados nas madrugadas. A inversão de valores dá medo.

Calma, não acabou a história dos briguentos de Brasília. Os responsáveis pela investigação afirmaram que três são-paulinos detidos (e já liberados) têm antecedentes criminais – folha corrida bem robusta, bem como o flamenguista (também integrante de uniformizada) ainda internado. Barra pesada. No entanto, circulam por aí. Podem, se quiserem, participar até de churrasco em sede de clube.

Então, surge especialista em marketing para dizer que ingresso barato atrai presença de bandidagem? A ralé das arquibancadas nem toma conhecimento do preço dos bilhetes; para ela, caem do céu, como milagre.

*(Parte principal da minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, 21/8/2013.)

 

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