Sempre na onda*

Antero Greco

19 de agosto de 2012 | 11h37

Há jogadores que são notícia em tudo que fazem – para o bem ou para o mal. Neymar encaixa-se nesse perfil. O jovem astro santista sobressai por qualquer motivo: contrato novo, uma exibição de gala, corte de cabelo diferente, uma atuação decepcionante, a compra de iate, publicidade no ar a cada semana, um drible a mais, um gol a menos, a discussão com um técnico, uma viagem de jatinho, a convocação para a seleção e assim por diante. Em geral, sem meios-termos: ou agrada ou é espinafrado.

A semana que passou referenda a tese. Na véspera do encerramento dos Jogos de Londres, levou bordoada a torto e a direito pela derrota para o México e consequente perda da medalha de ouro. O time de Mano Menezes – treinador aí incluído – decepcionou, jogou aquém do que o torcedor desejava e mais uma vez viu bater na trave a glória olímpica. Desatenção coletiva, com uma falha inicial de Rafael. Mas o alvo preferido para descer a lenha foi Neymar.

Naquela tarde em Wembley voltaram as críticas: é mimado, produto de mídia, amarelão, folgado, jamais será Messi, some quando topa com marcação cerrada, prende demais a bola, só serve para jogar o Paulistinha, enganador. Deixo à margem dessa lista as expressões mais depreciativas, que destoam da elegância do Estadão. Ou seja, nada que fuja demais de outros episódios de derrota, seja da seleção, seja do próprio Santos. Perdeu, o culpado é Neymar. Fica fácil.

No meio da semana, vestiu a amarelinha (no caso, uma azulzinha) no amistoso com a Suécia. Teve desempenho aceitável, em Estocolmo, e foi do vestiário direto para o aeroporto local. Num jatinho, voou 14 horas até Florianópolis, onde na quinta à noite a equipe dele enfrentou o Figueirense pelo Campeonato Brasileiro. Neymar jogou, perdeu gol, fez um bem bonito, cavou expulsão de um adversário e ainda deu um presentão para Ganso fechar a conta de 3 a 1.

Mereceu elogios, com senões e uma polêmica. A desenvoltura com que voltou a vestir a camisa alvinegra não se deu porque se sentia bem e feliz, mas por ter enfrentado um rival frágil, que está na zona de rebaixamento, que não faz mal a ninguém, galinha morta e etc etc. E desencadeou uma série de reprimendas ao Santos por tê-lo exposto a desgaste ao colocá-lo em campo menos de um dia depois de jogar na Europa.

Também acho que o sensato seria deixá-lo dormir sossegado na Suécia, voltar com os demais companheiros, relaxar e partir para a luta hoje, no clássico com o Corinthians. Expurgar o jet leg, desintoxicar pelo período longo fora de casa, rever amigos, jogar conversa fora. Porém, concordo com Muricy, que não via sentido ignorar o rapaz, após a peripécia para chegar em tempo. Aí seria rematada palhaçada.

Neymar é muito jovem, e em breve espaço de carreira acumulou o que a maioria dos mortais não consegue na vida toda. Por méritos. só que provoca inveja, nem sempre percebida, jamais admitida. Inveja é desagradável, mas sentimento muito humano. Sem contar que desfila visual fora dos padrões convencionais, não teve berço de ouro, apresenta reações típicas de sua faixa etária. Mas é celebridade, aparece na tevê, no rádio, frequenta rodas exclusivas – e muitas o recebem por ter fama e dinheiro.

No campo, virou prima-dona da noite pro dia. Sorte dele, por um lado; azar, de outro. Como não temos por aqui craques maduros em ponto de bala, Neymar queimou etapas e virou a salvação da lavoura nacional. Pode vir a ser, ainda não é. Aposto na ação do tempo e em cobranças adequadas.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 19/8/2012.)

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