Símbolo improvável*

Antero Greco

24 de fevereiro de 2013 | 11h38

A Bolívia foi palco, há quatro décadas e meia, da consolidação do mito Che Guevara. Desde que foi assassinado pelo exército local, em La Higuera, várias gerações cultuaram a lenda do guerrilheiro argentino, e a imagem dele ainda hoje circula pelo mundo, em pôsteres ou impressa em camisetas. Muitos moços nem sabem quem tenha sido, nem o que tenha feito, mas desfilam no peito com o que consideram talvez um ícone pop.

Nestes anos iniciais do século 21, o país andino, por infeliz coincidência, pode servir de marco na luta contra a barbárie nos estádios. Um jovem nativo, quem sabe, não se torne símbolo de campanha pela paz entre torcidas? A memória do adolescente Kevin Beltrán Espada será respeitada de fato não só se houver a punição dos responsáveis pela estúpida morte, ocorrida na quarta-feira à noite, com o impacto de um foguete sinalizador que desfigurou seu rosto. Mas sobretudo se o sacrifício involuntário da vida dele desencadear um movimento de conscientização de que os campos de futebol são locais de alegria e de liberdade, e não de dor e extermínio.

A imolação do rapaz de 14 anos precisa servir de referência para ações honestas, perseverantes e justas, que protejam os fãs de esporte e inibam os terroristas das arquibancadas. O inocente que caiu, tão logo o San José sofreu gol do Corinthians, tem de ser tomado como bandeira pelos cartolas bolivianos, brasileiros, sul-americanos, mundiais ou sei lá mais quem, numa cruzada contra os insensatos que se consideram super-heróis porque brigam, matam e morrem pelo time ou pela organizada.

Pausa. Os três parágrafos iniciais desta crônica soam como divagação e fantasia? Concordo. Deixei-me levar por entusiasmo, o que nem sempre cai bem para um homem maduro. Devaneio e tanto imaginá-lo emblema como o Che. Um participou de revolução, o outro não passava de menino comum interessado em jogo de bola. O primeiro derrubou um regime, o segundo, provinciano, tinha aproveitado a noite de folga para curtir uma partida da Libertadores. “Libertadores” também parece ironia…

O destino mais provável de Kevin é cair no esquecimento, exceto para os parentes, que carregarão a lembrança dura da perda e ficarão à espera de justiça. O mundo tem pressa, os assuntos não podem demorar-se nas páginas dos jornais, na tevê, ou na internet. O público continuadamente pede temas novos e vibrantes. Caso contrário, bate a monotonia e… a audiência despenca.

O roteiro é conhecido e repetitivo. O momento inicial provoca impacto, cólera, uma enxurrada de comentários nas redes sociais e pedidos de atitudes firmes. Dirigentes, políticos, especialistas, peritos, polícia são ouvidos e prometem medidas drásticas. Suspeitos são detidos e paira no ar sede de vingança a todo custo.

Aos poucos, a ira arrefece e o discurso muda. Espera aí, não foi bem assim, não houve intenção de matar, que é isso, ninguém é bandido, o pessoal abusou um pouco, puxa aquilo acabou com nossa animação, foi mal mesmo, fazer o quê?, vamos dar força pra família. O blablabá de costume.

As reflexões em torno da gravidade do episódio já descambaram para polêmicas com ranço clubístico, numa leviandade de embrulhar o estômago. O Corinthians, em princípio solidário no drama de Kevin, foi previamente punido pela Conmebol, mas recorre e alega prejuízos se tiver de jogar com estádio vazio. A torcida prepara ato de desagravo, porque se sente aviltada com os portões fechados.

Não, Kevin não será um Che.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 24/2/2013.)

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