Símbolo loteado*

Antero Greco

21 de janeiro de 2011 | 14h27

Na quarta-feira, duas imagens me chamaram a atenção, em jogos do Campeonato Paulista. A primeira foi a do uniforme do Santos, quase imaculadamente branco e condizente com sua tradição. A única intromissão, porém simpática, foi a imagem do ursinho panda estampada na parte da frente, ao lado do escudo. O animal é o símbolo da WWF, fundação internacional que defende a vida selvagem. O clube paulista divulga essa marca, como uma espécie de ação social, enquanto define patrocinador para a temporada recém-iniciada. Bonito ver o uniforme nas cores originais.

No mesmo dia, um pouco mais tarde, o duelo entre Bragantino e Corinthians mostrou um festival de mau gosto ambulante. As duas camisas ostentavam uma infinidade de anúncios, dos mais diversos tamanhos e produtos, esparramados por todos os cantos – até no sovaco. Os escudos ficam perdidos nesses outdoors, nessa colcha de retalhos. Camisas alvinegras tão lindas parecem mais abadás carnavalescos.

Não tenho a menor dúvida de que o argumento principal para justificar o loteamento é a necessidade de fazer caixa, de ter dinheiro para investir, para pagar contas, para montar equipes competitivas etc. e tal. Sei que o futebol se transformou numa atividade cara e que o uniforme é fonte de renda imprescindível. Até o autossuficiente Barcelona curvou-se ao apelo e, depois de décadas, aceitou fazer propaganda. Mas vendeu caro, se fez valorizar. É o que mais arrecada no mundo nesse quesito. E não perdeu o charme ou a elegância.

O Corinthians gaba-se de ser o segundo clube que mais faturou, com a diferença de que teve de recorrer a uma dezena de anunciantes, para ainda assim ficar distante do gigante espanhol. Alguém pode dizer que é prova de marketing agressivo e eficiente. Mesmo? Ou seria uma demonstração de que não há limite para a voracidade de arrecadação? Certamente o Barça tem fila de pretendentes a comprar alguns centímetros quadrados de sua camiseta. Só que o bom senso dos cartolas – além de legislação que regula a publicidade – prevalece sobre o comichão de ganhar uns trocos.

Reconheço que os clubes precisam ser criativos e devem diversificar as opções para aumentar as receitas. Que o façam sempre com critério. Os pragmáticos que me desculpem, ainda sou dos que veem a camisa do time de coração como manto sagrado. E como tal deve ser respeitado. Um patrocinador, vá lá, passa, já que virou mal necessário. Um monte de reclames, que mais parecem os classificados dos jornais, é sacrilégio. Não gastaria um centavo para comprar essas peças horríveis. Ou então pediria desconto generoso aos clubes, porque, ao vestir camisas com visual tão poluído, estaria a fazer propaganda de graça, enquanto alguém lucra. Tô fora!

Fantoche ou líder? O Palmeiras desde ontem está sob nova direção. Arnaldo Tirone, o filho, venceu com facilidade a corrida presidencial que manteve com Salvador Palaia e Paulo Nobre, representantes de uma Situação dividida. O novo mandachuva do Palestra teve as bênçãos de cardeais influentes como Carlos Facchina, Alfonso Della Monica e sobretudo Mustafá Contursi. Ungido, portanto, por enorme ala conservadora de um clube ultraconservador, que tem dificuldade de lidar com a modernidade, perde espaço e parece não se dar conta disso. O sofrimento fica para a torcida.

Se de fato é palestrino da estirpe do pai, com quem convivi muito nos meus tempos de repórter, Tirone não pode agir como fantoche. Que seja democrático e ouça seus simpatizantes. Que peça opiniões, ideias e delegue poderes e responsabilidade. Porém, espero que seja líder, atrevido, independente e sobretudo honre a quase centenária história do clube.

O Palmeiras se fez grande e respeitado com o futebol, com seus esquadrões. A tarefa de Tirone não deve limitar-se a cuidar de piscinas e de uma sede em zona valorizada da cidade. Sua missão é a de resgatar a vocação de grandes conquistas, a maior riqueza alviverde. Mas dá medo a conversa de “pés no chão”. Mamma mia!

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, dia 21/1/2011)

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