Sombra do passado*

Antero Greco

20 de junho de 2012 | 12h01

Há nestes dias energia diferente a pairar sobre São Paulo e que não é reflexo de poluição, aquecimento global e outros temas importantes para a humanidade tratados no encontro multinacional no Rio. A alteração climática também não tem nada a ver com o inverno, que oficialmente desembarca amanhã no Hemisfério Sul. A mudança se deve ao futebol, mais especificamente ao duelo entre Corinthians e Santos, marcado para o Pacaembu e que indicará o representante do Brasil na final da Taça Libertadores.

Você acha que exagero? Então, puxe conversa no trabalho, numa mesa de bar ou na portaria do prédio e veja se vão falar mais de parcerias esquisitas para a prefeitura paulistana ou do clássico desta noite. Já fiz o teste, e o máximo que consegui foi arrancar duas frases sobre acordos políticos outrora inimagináveis (“É tudo farinha do mesmo saco”), logo superadas por palpites, prognósticos, apostas, fórmulas infalíveis para que tanto um alvinegro quanto outro consigam se safar da tarefa com sucesso.

Mas o jogo remete também ao passado. A expectativa é semelhante àquela de 12 anos atrás, quando o Corinthians decidia com o Palmeiras uma vaga para a decisão do torneio continental. E, assim como agora, também na ocasião o provável adversário seria o Boca Juniors. O dérbi de então terminou com o célebre pênalti de Marcelinho Carioca que Marcos defendeu – e o episódio funciona como referência para corintianos e santista, sejam torcedores, jogadores ou os respectivos treinadores.

Por que a história serve como marco para os envolvidos no capítulo de 2012? Justamente para mostrar o que não se deve fazer, no caso do Corinthians, e como agir corretamente, na ótica do Santos. Cada lado tenta tirar proveito de lições velhas para encarar, provavelmente, os argentinos… sempre eles, sempre perigosos, a nos atrapalhar.

O Corinthians da época era superior ao atual e foi para a segunda partida com o Palmeiras com a vantagem da vitória. Vacilou, perdeu quase em cima da hora e se descontrolou nas cobranças das penalidades. Tite se acautela para não fazer o raio cair no mesmo lugar pela segunda vez. Certo que são outros tempos, outros jogadores, outra comissão técnica, outra cartolagem. Mas o temor é idêntico. Por isso, tratou logo de não deixar dúvida a respeito de quem entraria no lugar de Emerson, suspenso, e jogou a camisa para William. O titular tem mais técnica e fez o gol que pôs o time à frente neste tira-teima. O reserva, porém, tem velocidade e fecha espaços no meio tão bem quanto Jorge Henrique.

Isso significa que o Corinthians dará prioridade à defesa? Sim, como tem sido marca registrada sob o comando de Tite. Mas, vale ressaltar ainda uma vez, que não se confunda essa alternativa com a do Chelsea. Os ingleses foram retrancados contra Barcelona e Bayern, atuaram como pequenos que contaram também com a sorte. O campeão brasileiro toma precauções, porém costuma marcar o adversário na frente. Não tem ataque arrasador, mas não toma gols.

A missão de estufar redes foi empurrada para o Santos. Muricy e seus rapazes sabem disso – e têm noção de como é árdua. A única maneira de desestruturar o adversário, e invocar em seu favor o fantasma de 2000, está na feitura de gols, de preferência logo. O caminho para o sucesso passa pelos pés de Ganso e sobretudo de Neymar. O astro santista não jogou nada, na Vila, e outra vez entra em campo pressionado. Para ele (e para Santos e Corinthians), é noite sem meio-termo: ou glória ou frustração.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 20/6/2012.)

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