Técnicos são birrentos*

Antero Greco

12 de fevereiro de 2014 | 12h11

Todo técnico tem idiossincrasias – cismas, pra ficar na linguagem popular. E delas não se separa, quando assume a seleção. A lista é grande, eis uns casos: Cláudio Coutinho ignorou Falcão e insistiu com Edinho na lateral-esquerda em 1978. Telê não quis saber de Leão no Mundial de 1982, e em 1986 apostou em alguns veteranos arrebentados. Lazaroni levou Bismarck para a Itália em 90, Parreira não colocou Ronaldo Fenômeno (então, apenas Ronaldinho) um minuto sequer em campo em 1994. Zagallo deixou Romário fora, em 1998, assim como o fez Felipão em 2002. Dunga chamou Doni, Júlio Baptista, Kleberson, Felipe Melo e outros em 2010 e se fez de surdo aos apelos por Neymar.

Felipão, de volta ao comando da amarelinha, também tem mantido as birras dele, como legítimo ítalo-gaúcho cabeça-dura. A principal delas se concentra em Julio Cesar. O goleiro anda em baixa em clubes – era reserva no rebaixado Queens Park Rangers, depois de ser dispensado pela Inter -, e recebeu um monte de votos de confiança assim que Felipão voltou à seleção em substituição a Mano em 2012.

A ponto de virar o único com presença no Mundial garantida por antecipação, esteja ou não em atividade regular (agora vai jogar no Toronto…). Tornou-se questão de honra dar-lhe força, como prova de crédito. Julio Cesar correspondeu na Copa das Confederações, o que satisfez o chefe. Só não será titular se realmente mostrar despreparo medonho. No mínimo, porém, fará parte da lista oficial dos 23 eleitos.

Felipão, no entanto, não é sonso, longe disso. Demonstrações práticas de argúcia vêm nas sutis mudanças a cada nova chamada. Sempre há nomes diferentes, mesmo que se limitem a um ou dois. Dessa maneira, observa, avalia, pondera, além de indicar que restam dúvidas, que não tem o pacote fechado de antemão. Ainda bem. Pessoas com convicções inabaláveis me assustam. Estas estão sempre próximas do erro.

Os mais recentes lembrados na reta final são Fernandinho e Rafinha. Ambos fazem temporada muito boa na Europa e chamaram a atenção da comissão técnica. Nem vou discutir, aqui, o peso que tem destacar-se no umbigo do futebol mundial, em detrimento de brilhar em casa. Não vale a pena, é gastar tinta à toa. Os rapazes têm qualidades, podem ser utilizados em mais de uma função. E é o quanto basta para as portas se lhes abrirem.

Levo em conta o valor simbólico da presença deles. Felipão outra vez revela que não agirá como um de seus antecessores. Para ser mais exato: Dunga. Por ser turrão, fechou-se com um grupo muito antes da aventura na África do Sul. Imaginou que, ao comportar-se de tal modo, passaria a imagem de retidão aos atletas, ganharia o apoio deles.

Lealdade é excelente qualidade – e não há por que desprezar Dunga por isso. O pecado foi cerrar os olhos para fatos – e jogadores – novos, que viviam fase impecável em 2010. Ao relevá-los, prejudicou a equipe e a si próprio. Lembra do clássico com a Holanda? O Brasil perdia por 2 a 1, tinha um a menos e Dunga fez só duas alterações, pois não tinha alternativas…

Felipão não cairá nessa casca de banana – pelo menos assim se espera. O discurso na entrevista de ontem foi claro: há espaço para mexidas de última hora. Um dos setores é o ataque. A esperança de gols recai sobre Fred; mas permanece a busca por opção ao ídolo do Fluminense. Não há muito o que escolher. Tem gente com esperança até em Adriano. Sim, aquele mesmo. O ato de assinar com o Atlético-PR já seria aval para o retorno. Mamma mia!

A convocação parcial de ontem também deu uma pista a respeito do futuro de Kaká e Robinho. Cada um teve quota de oportunidades; apesar de não serem fartas, pelo visto não agradaram. A fase não ajuda, com o Milan caindo pelas tabelas. Sejamos sinceros: o que aconteceu de relevante na carreira de ambos nos últimos anos? Nada. Kaká perdeu tempo excessivo no Real Madrid, onde não era desejado. E Robinho ficou sem espaço no Milan.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, 12/2/2014.)

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