Time da Turiaçu*

Antero Greco

14 de agosto de 2011 | 12h20

Não se sabe ao certo onde começou, mas a gozação já se alastrou pelas mídias sociais, foi às ruas, chegou às arquibancadas. A Sociedade Esportiva Palmeiras, às portas do centenário, virou para os adversários o “Palmeirinha da Turiaçu”. Dessa maneira pejorativa, trata-se de diminuir a importância de uma das agremiações mais populares, mais famosas e de história mais rica do Brasil. Para ficar em linguagem moderninha, a sua imensa torcida sofre de bullying e não dá nem pra se queixar com o bispo.

O papel dos rivais, no futebol, é esse mesmo, o de bulir com os demais. A zombaria com a desgraça alheia é quase tão importante quanto a vitória do time de coração. Não vale o politicamente correto. É da vida. Mas, que para o palestrino a situação dói, não há como negar.

Machuca pra burro, como admite Nilson Pasquinelli, o diagramador do Estado que tem sangue verde. Há anos, ele é o mais preciso termômetro que conheço para medir o humor palmeirense. Ultimamente, anda com a crista baixa, murchinho que só. E, sou testemunha, não faz parte da turma do amendoim nem do limão. Não corneta. Ao contrário, é dos que acreditam sempre.

Ou dos que acreditavam. Nilsão hoje está desacorçoado, a ponto de quase não ter forças nem para protestar. Antes, esmurrava a mesa quando a equipe perdia, xingava o juiz, pedia reforços, ameaçava derrubar o Parque Antártica. Mas confiava na reação. Agora, sorri amarelo diante das provocações, esconde o rosto e se concentra no trabalho. Faz sinal de negativo, quando lhe perguntam se o time vai engrenar.

Eis o grande, incomensurável dano que se está a cometer contra o Palmeiras e sua legião de seguidores. O desânimo e a indiferença empurram o espírito irrequieto para escanteio e teimam em se tornar traços da personalidade da comunidade alviverde. O sangue quente dos nonnos que fundaram o Palestra Itália em 1914 virou água. O inconformismo inerente ao espírito de imigrantes audaciosos dá lugar ao fatalismo. Parece que o palmeirense se acostumou com decepções e humilhações.

Precisa despertar, mostrar descontentamento. Calma lá: não sugiro seguir os métodos de grupos radicais. Estes protestam ao sabor das conveniências, perdem a razão ao pregar patrulhamento de jogadores, ao propor justiçamento contra desafetos, ao optar por violência para extravasar tristeza. Não é o caminho, besteira partir pra ignorância ou quebrar taças, como episódio antigo e vergonhoso de invasão da sala de troféus.

Falo do torcedor comum, que não sabe como encarar a longa descarrilada ladeira abaixo. Que rumina frustração e não tem pra onde recorrer. Me refiro ao palestrino que vislumbra a possibilidade de seu time ser eliminado de cara da Sul-Americana. E do palmeirense que teme assistir a filme gasto, no qual a equipe não passa de coadjuvante no Brasileiro. Esses têm de fazer algo. O Palmeiras precisa de uma sacudida de entusiasmo.

A culpa não é dos “inimigos” – eles apenas se divertem. O enfraquecimento vem de dentro. O Palmeiras se esfacela há muito tempo por divisões internas, por seguidas administrações equivocadas, por falta de ousadia nas ações, por marketing zero. O paradoxo é tão acentuado que havia quem protestasse contra a “interferência” da Parmalat, seu último momento de glória! Imagine agora, com a escassez de conquistas e de grana?! O Palmeiras ganhou nos últimos 11 anos um Paulista! Um!

Salvo reviravoltas que só o futebol permite, tende a amargar outra temporada de jejum. Pelo amor ao futebol e pelo carinho que tenho por agremiações com a tradição do Palmeiras, juro que gostaria de escrever uma crônica que exaltasse suas proezas. Só que não me dão motivos.

Pelo respeito a todo trabalhador, exultaria de felicidade, se pudesse enumerar os craques do elenco. Mas onde estão? Quais são? Valdivia, Kleber, Marcos Assunção? Bons jogadores; porém, no máximo esquentariam banco nos tempos de vacas gordas. Hoje, viraram os astros. Que é isso?! Maurício Ramos, Gerlei, Dinei, Márcio Araújo, Patrick e tantos outros estariam a abrilhantar… equipes do interior. Se amanhã provarem o contrário, vou aplaudi-los de pé.

O Palestra tem duas estrelas – e não estão no auge: Marcos e Felipão. O goleiro não aguenta mais, o treinador não sabe mais o que fazer. O trem da história passa e o Palmeiras faz de tudo para perdê-lo. Que pena.

*(Minha coluna no Estado de hoje, dia 14/8/2011.)

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