Torcida única é a derrota da civilidade

Antero Greco

27 de agosto de 2012 | 11h42

O clássico mineiro, no domingo, teve torcida única. Nem por isso, foi tranquilo. O Estádio Independência foi ocupado apenas por fãs do Cruzeiro, mandante do jogo, e ainda assim houve tumultos. No segundo tempo, ocorreu paralisação de quase dez minutos, depois que objetos foram lançados dentro do campo e copos d’água atingiram o árbitro.

A atitude atrevida e mal-educada foi de uma burrice sem tamanho. Os cretinos que agiram daquele forma podem prejudicar justamente a equipe que dizem amar. Porque, se houver um pingo de seriedade na organização do Brasileiro, o tribunal esportivo tem de punir o Cruzeiro. A responsabilidade pela ordem era dele e, o que é pior, não se pode nem alegar que os distúrbios foram provocados por adversários. A não ser que o Galo teve agentes infiltrados…

A confusão também reforça a evidência de que a opção por arquibancadas tomadas só por uma facção não resolve o problema da violência. Essa decisão é um atestado de incompetência do Estado de garantir a segurança do cidadão. E também um jeito preguiçoso de lidar com um problema grave. É a vitória do vandalismo sobre o comportamento civilizado.

Quando pessoas que ocupam cargos importantes vêm a público e alegam que, diante da rivalidade de cruzeirenses e atleticanos, não há alternativa senão a da torcida única, é o mesmo que dizer para os baderneiros: “Ok, vocês nos venceram. Não podemos fazer nada.” É demonstração de fraqueza, de falta de preparo para lidar com gente. É comodismo também.

Essa é a senha para que se alastrem brigas pela cidade – e houve vários incidentes antes do bom jogo disputado no início da noite. Além disso, faz com que a torcida que vá ao estádio se sinta “dona” do pedaço, a ponto de agredir quem estiver dentro do gramado. Numa lógica cretina, os torcedores que se comportaram daquele jeito também passavam o recado. “A gente manda aqui, a gente pode fazer o que quiser.”

A saída é trabalhar com inteligência, bom senso e rigor. A polícia tem recursos para identificar os focos de tensão e desarmar brigas. Os torcedores mais violentos são conhecidos. A melhor demonstração da presença do Estado é a garantia da segurança. Com isso, aqueles que vão apenas para torcer se sentirão protegidos. Os que vão para brigar se sentirão intimidados.

Torcida única é um sacrilégio para um clássico dessa envergadura.

 

 

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