Tormento tricolor*

Antero Greco

28 de julho de 2013 | 12h38

Os tombos do São Paulo estão na ordem do dia e só não chamaram mais a atenção, durante a semana, do que o título do Atlético na Libertadores e a visita do papa Francisco. Os três fatos, porém, são inéditos. Nunca antes na história deste país (alguém já disse isso) o Tricolor acumulara tantas derrotas consecutivas (oito até agora), nem o Galo havia conquistado a América, nem o cardeal Bergoglio nos tinha visitado na condição de maior autoridade da Igreja Católica – e com enorme carisma, registre-se.

O padecimento são-paulino tende a roubar a cena daqui por diante, desde que não consiga reação imediata. É necessário quebrar a sequência de fazer inveja ao Íbis, o folclórico “pior time do mundo” tão famoso nas décadas derradeiras do século passado. Para recuperar fôlego e tirar um pouco os pés da lama, só se obtiver vitória no clássico com o Corinthians.

Tarefa nada fácil. No último confronto entre ambos, menos de duas semanas atrás, a vitória alvinegra veio naturalmente, sem esforço adicional e ainda rendeu o troféu da Recopa Sul-Americana. Na ocasião, remei contra a maré, ao insinuar que o São Paulo poderia surpreender, apesar dos indícios que apontavam para a derrota anunciada. Coisa de cabeça-dura, de quem sustenta dose de ceticismo salutar. O que então não foi o caso, evidentemente.

Agora, outra vez, é questão de bom senso reconhecer ligeiro favoritismo da turma de Tite. Nem tanto por qualidades próprias, mas pela draga em que se encontra o rival. O Corinthians ainda não deslanchou no Brasileiro, tem só dois pontos a mais do que o São Paulo (embora com duas apresentações a menos) e custa a sustentar produção regular. A compensação vem com o ambiente sob controle e paciente. Não há cobranças exageradas da torcida, graças ao prêmio recente e ao potencial para brigar pela hegemonia nacional.

A pressão recai sobre as costas tricolores. Não há como encarar de maneira diferente. A campanha é péssima, embaraçosa, anormal. O time se comporta como amontoado de jogadores, sem harmonia, sem confiança, sem direção. A paciência do torcedor comum se esgota, e não são poucas as críticas à diretoria. As organizadas, por milagre ou por razões insondáveis, não só se revelam complacentes com os cartolas como ainda os defendem. Enfim, mistérios do mundo da bola…

Juvenal Juvêncio deixou um tanto de lado o estilo rococó e entregou a cabeça de Adalberto Baptista, aliado de muito tempo e desgastado como diretor de futebol. Dizem que o ambiente entre os boleiros melhorou com a defenestração. A conferir a partir de hoje. Bom frisar que o presidente baixou a guarda ligeiramente, apenas. Em entrevista publicada ontem neste caderno, ele se autoproclamou “um vencedor”.

O técnico Paulo Autuori não quer saber de misticismo, crendices, lutas de bastidores e afins. Com quatro tropeços desde que chegou, percebeu a enrascada em que se meteu ao sair do Vasco. A experiência lhe ensinou que, na toada atual, logo pode sobrar para si mesmo. Por isso, tratou de se sacudir e mexeu na formação titular. Lúcio e Ganso pagaram a fatura dos vexames. O zagueiro sai para alteração na defesa – a tendência é jogarem Tolói e Paulo Miranda no miolo da zaga -, enquanto o meia deixa espaço para Maicon, que o havia substituído durante o jogo com o Internacional na quarta-feira.

As trocas continuarão a ocorrer, pelo que deu a entender Autuori, ao mesmo tempo em que promete atacar. É preciso ver na prática como se comporta um meio-campo com Wellington, Rodrigo Caio, Maicon e Jadson. E o ataque com Ademilson e Osvaldo. No papel, não é um São Paulo de entusiasmar. Mas nunca é demais ter esperança. Grandes reviravoltas costumam ocorrer justamente nos momentos de crise.

Djalma eterno. Bonita e comovente a homenagem do Palmeiras de estampar o rosto de Djalma Santos na camisa, na partida de ontem com o Guaratinguetá. O Lorde merece.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 28/7/2013.)

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