Um ídolo, por favor!*

Antero Greco

31 de julho de 2015 | 12h46

Embaixadinhas e rodas de bobinho nem podem ser consideradas treinos. Trata-se no máximo de diversão para aquecimento, momento relaxante para boleiros antes de pegarem no batente. Mas atividades tão triviais viram atração para centenas de torcedores se, dentro de campo, está um fora de série do quilate de Ronaldinho.
Pois a cena se repetiu nas Laranjeiras algumas vezes, durante a semana, quando as lendárias arquibancadas locais foram invadidas por crianças, jovens e veteranos afoitos por ver o astro, recém-contratado como a pérola do grupo. A presença do gaúcho fez brilhar os olhos das pessoas, que se concentraram nele e se esquecerem de Fred, até então o senhor absoluto da adoração tricolor.
O público pouco se lixou para o fato de Ronaldinho ter 35 anos e há muito ter deixado de ser protagonista das equipes que defende. A imagem  construída no auge da carreira, uma década atrás, é tão forte que leva as pessoas a relevarem limitações físicas e técnicas para enxergar apenas o mito. Por isso, a corrida por camisas número 10, a busca por ingressos no dia da apresentação oficial (derrota no clássico com o Vasco) e a expectativa para o jogo de amanhã contra o Grêmio, numa dessas ironias do destino o time que o projetou e que o perdeu para o PSG.
Ronaldinho talvez não corresponda às exigências do Campeonato Brasileiro, provavelmente nem tenha participação intensa ao longo da competição. A tendência indica aproveitamento parcial, em situações apropriadas Há mais marketing do que estratégia de jogo no novo repatriamento do craque.
Não tem problema. Para a plateia interessa  ver um ícone do futebol a vestir a camisa do Flu. Os fãs esperam efeitos especiais, dribles, lançamentos sutis, chutes certeiros. Firulas. Coisas que os íntimos da bola sabem fazer – e bem.
A volta de Ronaldinho tem um quê de nostalgia. O sujeito sabe que ele não apresentará a desenvoltura  da juventude, ainda assim arrancará aplausos se mostrar um de seus “números”. Equivale a lotar estádio para assistir a show de  Paul McCartney, para citar assíduo visitante. A febre  dos Beatles ocorreu há meio século; no entanto, o carisma permanece. Basta ouvi-lo recordar antigos sucessos para que todos saiam satisfeitos. Ok, no futebol há os três pontos em disputa. Mas, que diabos, é Paulo no palco, é Ronaldinho no gramado!
A euforia tricolor prova como anda reprimida a demanda por estrelas em nosso futebol doméstico. Faltam referências nos times, jogadores que atraiam multidões, que fascinem e funcionem como chamarizes. Não é à toa que o são-paulino se angustia com a proximidade da aposentadoria de Rogério Ceni, assim como o palestrino ficou desnorteado quando Marcos anunciou que não dava mais para jogar. O santista não esquece Neymar e perdoou as idas e vindas de Robinho.
O solista é imprescindível, por mais que tenhamos ciência do futebol como conjunto etc e tal. O artista se destaca, aglutina sonhos – e também decepções – das torcidas. Convivem com a glória e a cobrança. Por que se pega tanto no pé de Ganso? Porque despontou como o fora de série e, como tal, deve corresponder a expectativas. Pelo mesmo motivo, Valdivia dividiu opiniões no Palmeiras.
Um dia, talvez, os dirigentes brasileiros se darão conta da necessidade – e sobretudo dos benefícios – de ter ídolos nas equipes. E descobrirão maneiras de impedir que batam asas tão cedo seduzidos pelos europeus. Sonho, claro, mas não custa sonhar.
 Por isso, que seja feliz o Flu enquanto Ronaldinho estiver por lá. Mesmo que em lances esporádicos.
CBF. A propósito de sonho, assino embaixo o que escreveu aqui, ontem, Luiz Antonio Prósperi: o Brasil deveria romper o preconceito e apoia  experiência de ex-jogadores no comando de federações, CBF e até Fifa. Mas que sejam nomes como Raí, Alex, Marcos, César Sampaio, Zinho e não gente comprometida com cartolas e altos interesses. Chega de raposas a tomar conta do galinheiro.
*(Minha crônica publicada no Estadão impresso de hoje, sexta-feira, dia 31/7/2015.)

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