Um olho no gato, outro no peixe

Antero Greco

28 de abril de 2013 | 13h30

Hoje é dia da primeira decisão para Corinthians e São Paulo no Paulista. O destino de ambos será decidido em jogo único, na base do vapt-vupt, depois de 19 arrastadas jornadas na fase de classificação. Um vacilo diante de Ponte Preta e Penapolense, respectivamente, e adeus sonho do título estadual. Uma das contradições do torneio administrado pela FPF.

Taça é taça, e cobrança sempre haverá para equipes acostumadas a conquistas. Mas fica no ar a ligeira impressão de que eventual eliminação não provocará, por ora, maiores sobressaltos no Parque São Jorge, nem no Morumbi. Porque, apesar dos desmentidos categóricos e de praxe, a prioridade está na Libertadores. Faturar a América se mostra mais fascinante do que recuperar a hegemonia regional. Uma pena que assim seja. As duas competições poderiam igualmente atrair atenção dos gigantes.

Não dá para criticar a preferência de corintianos e são-paulinos. O título continental virou obsessão por estas bandas, desde que os anos 1990 colocaram a carinha pra fora e assustaram os brasileiros, pois vieram à luz na época em que Fernando Collor e Zélia Cardoso confinaram a poupança da nação. Em duas décadas, dali em diante, as equipes de cá se fartaram de chegar à final e de atingir o cume. Tricolores experimentaram o gosto da vitória em três ocasiões, enquanto alvinegros ainda estão a saboreá-la como campeões.

Para manter-se ou na trilha do tetra ou do bi, a semana lhes reserva duas provas de fogo. O São Paulo topa novamente com o Atlético-MG, em casa, num dos duelos das oitavas de final. O Corinthians viaja para Buenos Aires, onde reencontra o Boca Juniors, rival na decisão de 2012. Mineiros (pelo excelente futebol do momento) e argentinos (pela tradição) preocupam – daí o dilema de Ney Franco e Tite para encontrar a fórmula exata e dosar as forças entre as duas frentes. Os treinadores vivem a situação clássica do ficar com um olho no gato (Campeonato Paulista), outro no peixe (Libertadores). Sem ter muito por onde fugir.

O gato para o Corinthians, em teoria, é mais ardiloso do que aquele sob a vigilância do São Paulo. A Ponte fez campanha muito boa, sofreu só uma derrota (no jogo contra o Palmeiras) e fechou a etapa anterior com 38 pontos, três a mais do que o adversário deste domingo. Joga em Campinas e pode repetir a proeza de 2012, quando se livrou de Ralf, Paulinho & Cia. na mesma fase de agora.

O Penapolense agarrou a última vaga e entra na base do tudo o que vier é lucro, longe de aparecer como favorito. Se sair da luta, não haverá lamentações, pois cumpriu papel digno e honroso.

Ney resolveu a dúvida na base do vai ou racha. Em miúdos, significa que não dará folga pra ninguém, seja no Paulista, seja na Libertadores. Veem os jogos das arquibancadas os que não tiverem condições médicas ou legais para entrar em campo. No mais, manda carga máxima, com os riscos que isso comporta. Opção compreensível para quem passou apuros tempos atrás e por pouco não foi apeado do cargo.

Além disso, avalia Ney, melhor garantir-se no mínimo em um dos torneios, em vez de ficar sem nada prematuramente. Nessa linha de raciocínio, o Estadual desponta como objetivo mais palpável. De lambuja, sucesso hoje serve como vitamina para encarar Ronaldinho Gaúcho e discípulos no meio da semana.

Tite reza em cartilha semelhante à do colega. Mesmo com acúmulo de desafios, ponderou prós e contras para chegar à conclusão de que vale a pena flertar com o título regional que lhe falta. A equipe mantém a estrutura habitual, desta vez com Romarinho no meio, com Emerson e Guerrero à frente. Pato permanece como alternativa, para a eventualidade até de apelar para mais atacantes.

A escolha permite duas interpretações. A tática, ao sinalizar que não vai se expor diante de uma Ponte que sabe ser agressiva; portanto, reforça o meio. A física, ao preservar Pato, astro tratado com o cuidado que se tem com cristais finos e frágeis.

 

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