Vai com calma, Adriano

Antero Greco

26 de fevereiro de 2014 | 13h57

Tem gente que atrai enrosco. Mesmo que trate de ficar quieta em seu canto, que se esforce para fugir de confusão, de repente aparece algo para alterar-lhe o humor e a rotina. Pode reparar como todos conhecemos alguém assim, em casa, entre os amigos, no escritório.

Adriano parece fazer parte desse tipo especial – e muitas vezes azarado. Ficou sumido um tempão e só era lembrado por algum episódio fora do normal. O futebol já era, depois de mais de dois anos sem dar um chute na bola em jogos oficiais. Só treinos, operações e ostracismo.

Surge a oportunidade no Atlético-PR, perto do fim da temporada passada. Ele topou, o clube bancou, o corpo afinou e eis Adriano de volta aos gramados. Como trunfo para a disputa da Libertadores de 2014. Com a promessa de aproveitamento lento, sem pressa, calculado.

Na estreia da fase de grupos, duas semanas atrás, jogou alguns minutos contra o The Strongest, para alegria dele, da torcida, da direção do Furacão, na Vila Capanema. O mesmo ocorreu anteontem, na derrota por 2 a 0 para o Velez Sarsfield, na Argentina. Entrou quando faltavam em torno de 10 minutos para o final do jogo, de novo no lugar de Ederson.

Só que, ao contrário da primeira ocasião, dessa vez Adriano saiu de cara amarrada. Não quis papo com ninguém, passou batido para os vestiários, numa demonstração de que estava aborrecido com a situação. Percebia-se o humor dele modificar-se à medida que o técnico Miguel Portugal mexia no time e não o colocava. (Antes, entraram Bruno Mendes e Mosquito.)

Não sei que tipo de relacionamento têm jogador e treinador. Imagino que, se for aberto, Portugal deva ter explicado para Adriano que a ideia é colocá-lo em campo sempre, independentemente do resultado. Isso facilitaria o entendimento e ficaria clara a estratégia do clube. Se não o fez, pode provocar ruído, como ocorreu. E isso não é bom para ninguém.

Adriano pode ter interpretado como desprestígio o fato de ser aproveitado quando a vaca já tinha ido para o brejo. Faz sentido. Eu também acharia isso, se fosse comigo. Mas tem o outro lado da moeda: ele não está em condições de exigir isso ou aquilo, pelo longo tempo de inatividade e pelas dúvidas em torno de sua real capacidade.

O mais indicado, portanto, era ficar na boa, sair com as declarações de praxe e depois conversar reservadamente com Portugal. Sinceridade é legal, sem dúvida. Mas, vez ou outra, um sorrisinho, amarelo que seja, pode se revelar excelente tática para driblas diz-que-diz.

Adriano precisa ir com calma, se quiser emplacar no Atlético. Em todo caso, Portugal pode ficar com as barbas de molho. Já surgem sinais, aqui e ali, de fritura…

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