Vai, com jeito vai*

Antero Greco

17 de fevereiro de 2012 | 12h20

O poder engana e embriaga. Sobretudo quando é absoluto. Homens que controlam instituições por muitos anos perdem noção da realidade. Sem se dar conta, deixam-se absorver pela sensação de onipotência, de eternidade, e não percebem que são frágeis e efêmeros quanto o mais obscuro de seus servidores. Tudo é ilusão, escreveu o autor do Eclesiastes, um dos livros mais sábios da Bíblia. Vale a pena ler (é curtinho), independentemente de convicções religiosas.

 O principal dirigente do futebol nacional enfrenta o maior adversário: o desgaste do tempo. As duas décadas e alguns pingados de reinado doméstico começam a escorrer-lhe pelos dedos, no momento em que está em gestação sua obra-prima, a Copa no Brasil. A onda de embaraços ameaça engolir o cartola que entrou no mundo da bola sob a bênção do sogro influente, de quem sonhou seguir a trilha e mirou a Fifa como ápice.

O estrago está feito. Pouco importa se hoje, amanhã ou na Quarta-feira de Cinzas, anuncie renúncia, licença médica ou só reafirme propósito de não baixar a guarda e seguir adiante. A imagem sofreu arranhões profundos, cicatrizes que nenhuma plástica de marketing pode disfarçar. Não há bancada da bola, não há assessores especiais, não há ex-boleiros dóceis muito menos mídia maleável que consigam dar jeito. Qualquer maquiagem é quebra-galho, até enfeia.

O chefe pode continuar no cargo, porque é custoso largar o osso. Mas com a consciência de que a autoridade não será como antes. Para aumentar a angústia, sabe que aliados de ocasião estão à espreita, prontos para dar o bote no pote de ouro na primeira oportunidade. Não é por acaso que presidentes de federações articulam a escolha do sucessor, conforme o Estado publicou ontem. Essa gente não perde tempo – e, no fundo, todos se estranham e se merecem.

Os motivos para a guinada na rotina do executivo que até recentemente trocava sorrisos e afagos com governantes e parlamentares são muitos – nem todos claros. Diversos meios de comunicação levantaram, nos últimos meses, histórias mal explicadas sobre atividades da entidade que administra o futebol brasileiro. As reportagens, pelo menos na aparência, não furaram a couraça protetora do dirigente que esnoba a opinião pública, como desabafou à revista Piauí (com outros termos, lembra?).

O que houve de tão grave e misterioso para o recolhimento? O que levou um mandachuva de grosso calibre a ficar à sombra e nomear escudos como Andrés Sanchez para tratar de seleções, além de Ronaldo e Bebeto para temas ligados ao Mundial? Que indícios surgiram para provocar esse rebuliço? Que sinais recebeu que podem levá-lo ao autodesterro sob o sol de Miami?

O governo não mexe uma palha para suavizar o panorama. A presidente Dilma Rousseff já escancarou para a nação indiferença com o dirigente. Não o recebe em audiência nem apareceu a seu lado no sorteio dos grupos, no final do ano. Na ocasião fez questão de exaltar apenas Pelé, que na plateia estrategicamente se sentou entre ambos. Não quer associar seu nome e o prestígio do país a um personagem que tem irremediável rejeição do eleitorado; quer dizer, povo.

Não sei isso como vai terminar. Sei que está assim de tubarão esportivo com antenas ligadas e tiques nervosos acelerados, com medo de que possa sobrar pra eles. Se sobrar, vai ser engraçado. Olimpicamente engraçado.

Comecei a crônica com a Bíblia e termino com carnaval. Emilinha Borba não sai da minha cabeça: “Vai, com jeito vai. Senão um dia a casa cai…”

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 17/2/2012.) 

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