Valdivia e a justiça do futebol

Antero Greco

12 de agosto de 2013 | 12h21

Vivemos uma época de muitos justiceiros no futebol. Sujeito vacilou, dentro de campo, e lá estão dezenas de câmeras e olhos atentos para denunciá-lo. E artigos e códigos são sacados, na hora, para mostrarem em quais e tais itens será enquadrado o vilão.

O que, numa época se consideraria só malandragem do jogo, agora tende a ser visto como crime comparável à formação de cartel para ganhar concorrência pública ou mesadas escusas para parlamentares votaram com o governo. Com ameaça de julgamento e suspensão. Se bobear, um dia o facínora ainda vai parar na cadeia.

O caso mais recente da indignação fácil se concentra em Valdivia. O chileno forçou o terceiro amarelo, na vitória do Palmeiras sobre o Paraná, no sábado, para cumprir suspensão enquanto estiver a serviço da seleção do país dele. Tratou de ser prático, já que ficaria fora mesmo da próxima rodada da Série B nacional. Coisa manjadíssima no mundo da bola.

Como conseguiu? Na velha catimba, que existe antes da invenção do futebol. Ao ser substituído, aos 32 do segundo tempo, enrolou pra sair do gramado. Até que o juiz Antonio Carvalho Schneider lhe mostrou a advertência. Era o que Valdivia tanto desejava, e não escondeu a satisfação com um sorriso maroto.

Episódio encerrado? Nada disso. Depois do jogo, o presidente do tribunal esportivo disse que a atitude do jogador seria analisada, desde que o procurador da entidade apresente denúncia, como de fato ocorrerá. Se for constatada ação premeditada, pode ser suspenso de 1 a 10 rodadas, por infringir regras do jogo no quesito conduta antidesportiva.

Valdivia foi sincero e tonto, pois durante a semana havia avisado, na televisão, que tentaria forçar o amarelo. E não escondeu a satisfação, ao sair de campo. Dito e feito. E a presunção foi o maior pecado que cometeu. Não se deu conta de que a hipocrisia tem mais valor, em determinadas situações, do que a verdade. Ainda mais no futebol. Era pra alcançar o objetivo na moita.

Uma bobagem à toa pode tirá-lo de campo por diversos dias. Um deslize que nem de longe tem a gravidade de uma cotovelada, uma botinada, uma cusparada, um carrinho criminoso – que muitas vezes passam incólumes para o infrator. Já o sorriso gaiato, ah esse é inadmissível! Onde já se viu tripudiar da seriedade do regulamento?

Bacana será o dia em que se denunciar, com igual veemência, os cartolas corruptos, as maracutaias nas competições, os acertos de bastidores. Talvez aí, sim, o futebol comece a ser mais limpo e será uma grande contribuição dos tribunais. Por enquanto, peguem-se pecadilhos dos atletas. É mais simples, indolor e mexe com menos interesses.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.