Vale trocar a infância pelo sonho de ser Messi?

Antero Greco

16 de junho de 2012 | 12h37

A notícia está em sites, é só dar um ‘google’ para encontrá-la. Um garoto de seis anos, de cidade do interior de São Paulo (por questão de princípios meus, prefiro não citar nomes), passou em dois testes realizados na Espanha e foi convidado a treinar nas categorias de base do Barcelona. A família, felicíssima com a perspectiva de ter um Messi em casa, topou e dentro de pouco tempo voltará à Europa para o garoto treinar.

Não sou psicólogo, não sou pedagogo – e sei que posso cometer erros de avaliação. Não sou também pai melhor do que ninguém. Criei dois filhos com carinho, com os erros e com os acertos da maioria dos pais. Além de passar-lhes ideias claras sobre retidão e respeito ao próximo, tentei dar-lhes liberdade também. Tem funcionado até hoje.

Nunca vi o futebol como uma profissão “menor”, ao contrário do que ocorria para a geração de meus pais. Para eles, o filho deveria estudar e ser doutor. Se o meu rapaz fosse bom de bola (e era, mas não para ser profissional), teria deixado que seguisse adiante. Iria incentivá-lo e certamente acompanharia seus passos bem de perto. Não bateria cabeça, disso estou certo.

Mas não permitiria que saísse do país ainda na primeira infância. Não iria arrancá-lo do convívio dos amiguinhos, dos tios, dos nonnos, para aventurar-se a treinar em terra estrangeira. Nem que eu e minha mulher fôssemos juntos. Se, de fato, tivesse talento, apostaria no tempo para autorizar tal aventura. Quando tivesse consciência das coisas da vida.

Por mais que se diga que o programa inclui estudo e lazer, se trata já de um compromisso a assumir muito precocemente. Criança tem de brincar, precisa manter a cuca fresca, livre de preocupações, deve seguir a ação normal do tempo para amadurecer.

Será positivo incutir na cabeça de um menino a ideia de que terá futuro como jogador de futebol? Quem garante o sucesso dessa previsão? E se não vingar, como ocorre com a maioria dos que frequentam a base de qualquer clube? Qual o preço que se paga por sair do ninho tão cedo? Eu não tenho as respostas, não vou ensinar nada a pai nenhum. São apenas reflexões.

E uma reflexão final: será que um dia esses gigantes do futebol internacional irão apostar em embriões, em fetos, se estudos apontarem que têm potencial para jogar futebol? Não duvido.

 

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