Vigiar jogador é desespero e atitude inútil

Antero Greco

27 de julho de 2011 | 12h52

Vira e mexe torcidas se mobilizam para sair à caça de baladeiros. Em geral, esses movimentos repressores surgem em momentos de baixa de suas equipes. O diagnóstico preliminar, apressado e superficial indica que a gandaia é responsável pela queda de desempenho. Então, o remédio seria vigiar, controlar atletas e denunciar os abusos deles. Dessa forma, acredita-se, os folgados pensarão duas vezes antes de pecar e vão empenhar-se mais nos treinos.

Esse raciocínio é de uma ingenuidade chocante e embute um comportamento fascista preocupante. Não leva a nada além de tensão entre torcidas e atletas, bate-bocas, agressões, rupturas. Não conheço um jogador que tenha deixado de “ir para a noite” por causa de marcação cerrada dos fãs. Nem antigamente nem hoje, com todo o aparato de câmeras disponíveis em celulares, canetas, relógios, anéis. Essa besteira toda criada para nos controlar.

Aliás, alguém já se deu conta de como tentam seguir nossos passos? É controle para tudo: crachá para entrar no trabalho, para visitar amigos em prédios comerciais (e residenciais também), câmeras de vigilância na rua, nos supermercados, nos edifícios, nos clubes, nos estádios, nos hospitais, nas casas. Fichas a preencher em crediários, em sites, no diabo a quatro. Dados nossos que nem sabemos nãos mãos de quem vão parar. Em qualquer lugar em que vamos antes de mais nada nos consideram suspeitos. Chega disso!

Pois bem. Quem quer abusar vai encontrar formas de fazê-lo. Sei de jogador famoso, que atuava no Exterior até bem pouco tempo atrás, que se encheu de ser visto em boates. Em vez de parar com as farras, sabem o que fez? Passou a dar festanças fechadas, em casa. Os excessos eram os mesmos, só que não mais em público. O desempenho dele em campo sabe no que resultou? Na mesma mediocridade de quando era flagrado na rua…

O que os vigilantes precisam entender é que a seleção, no futebol e na vida, se dá naturalmente. Jogador ruim será sempre ruim, com balada ou sem. Vá lá, digamos que, com balada, piore um pouco. Jogador bom será sempre bom. Ok, com excessos pode acelerar o declínio da carreira. Cada um faz seu destino. Vai depender da consciência do atleta saber até onde pode ir. Os inteligentes dosarão; os desmiolados, não. E pagarão por isso.

Torcedor deve cobrar de seus dirigentes transparência na administração do clube, nas contratações, na definição de comissão técnica e de projetos. Não adianta sair à caça de jogadores que estejam na noite e reprimi-los, achando que aí está a solução. De que serve um grupo comportadinho, enclausurado, muitas vezes triste e que não ganha nada? Lembram-se da seleção no ano passado? Ninguém saía da concentração. Deu no que deu.

É lugar-comum, mas continua atual: liberdade, com responsabilidade, ainda é um caminho saudável, em qualquer atividade. No caso do futebol, acrescento que um grande time se faz com bons jogadores, não necessariamente com jogadores bonzinhos.

Tudo o que sabemos sobre:

futebol

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.