Vôlei ou futebol*

Antero Greco

12 de agosto de 2012 | 16h13

Entre o final da manhã e o meio da tarde de ontem, o Brasil que curte esportes foi da indignação à euforia. Torcedores bufaram de raiva com a derrota no futebol, desceram a lenha em Mano, Neymar & Cia. Logo após o almoço, porém, vibraram com a conquista do ouro no vôlei feminino. Urros, buzinaços, rojões marcaram a proeza das moças comandadas por Zé Roberto Guimarães, o mago.

O desfecho distinto de trajetória das duas modalidades na Olimpíada levou a posturas radicais nas redes sociais, esse termômetro moderninho do humor do público. O futebol foi execrado; e mercenário, o termo mais leve usado para definir a imagem do grupo de boleiros após o fiasco diante do México. Em contraposição, as atletas viraram guerreiras, musas, síntese de virtudes. E o Brasil, entre a uma e as quatro da tarde, num passe de mágica se transformou no “país do vôlei”.

Fogo de palha, reação de apaixonados com dor de cotovelo e em busca de consolo. O futebol continua a ter preferência nacional, no que embute de bom e ruim. Os que agora xingam Sandro, Marcelo, Rafael e o diabo a quatro até anteontem vibravam com vitórias contra adversários insossos como Egito, Bielorrússia, Honduras. E serão os mesmos que em 2014 vão se esgoelar na ânsia pelo hexa.

Os indignados com a medalha de prata provavelmente vão vibrar (e espero que assim seja) hoje pela manhã com a seleção do Bernardinho, irão para os fóruns de debates falar que o vôlei é exemplo, que isso sim é esporte, abaixo a selecinha! adeus Mano!, volta Felipão! e bordões do gênero. Amanhã, passada a festança esportiva de Londres voltarão a discutir os destinos do Corinthians ou se o Palmeiras foi roubado mais uma vez, estarão à espera do retorno de Neymar para salvar o Santos, torcerão para o São Paulo se aprumar.

E o vôlei? Haverá palmas, quem sabe desfile em carro de bombeiros, discursos e, depois, vida que segue. Os admiradores de fato do vôlei continuarão a acompanhar os passos das jovens e dos rapazes, nos clubes e na seleção. Os demais vão lembrar-se desse pessoal só na próxima grande competição.

Acho uma pena. Gostaria que fôssemos uma nação poliesportiva. Mas, 35 anos de vivência na área, me levam à constatação desapontadora de que o futebol prevalecerá por muito tempo, com as mazelas e fascínio que carrega. O brasileiro gosta de vitórias em qualquer esporte, mas é fissurado no joguinho de bola. Veja a Fórmula 1. A audiência cai por aqui, porque não temos mais um Fittipaldi, um Piquet, um Senna. O interesse pelo tênis estourou na época de Guga; agora, voltou a seu nicho habitual. Natação tem chamado a atenção quando tem Cielo na piscina. Mas, como voltou com o bronze, não será badalado.

Até o vôlei campeão ficará restrito a seus fãs (que nem são poucos). Mas quantos que hoje proclamam o Brasil como país do vôlei saberão declinar os nomes de meia dúzia de equipes ou terão na ponta da língua as escalações? Quantos vão preocupar-se com eventuais trocas de treinadores? Quantos frequentarão os ginásios regularmente? Por isso, digo que é tudo entusiasmo da boca pra fora.

O futebol irritou e coloco em dúvida a trégua para Mano que registrei na crônica de quarta-feira. A pressão pelo jeito retomou fôlego e o projeto para 2014 fica como interrogação, ainda mais que essa é a base (frágil) para o Mundial. A derrota desnudou a lorota de projeto olímpico para o futebol. Não existe nem vai existir, porque o futebol tem ritmo, calendário, interesses diferentes do vôlei. No futebol, não há como ter seleção permanente. No vôlei, sim, pois jogadores passam meia temporada em clubes, meia em seleções. No futebol, é impossível. Vôlei pode ter equipe única para Pan, Mundial, Liga, Olimpíada. O futebol, não.

Quem ama esportes não deve clamar por duelo Vôlei x Futebol. Ambos são bonitos, fortes e podem dar alegrias para o torcedor. Não são excludentes.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 12/8/2012.)

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